sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Janela para o mundo

"De janela, o mundo até parece o meu quintal
Viajar, no fundo, é ver que é igual
O drama que mora em cada um de nós
Descobrir no longe o que já estava em nossas mãos
Minha vida brasileira é uma vida universal
É o mesmo sonho, é o mesmo amor
Traduzido para tudo o que o humano for
Olhar o mundo é conhecer
Tudo o que eu já teria de saber
(...)
Estrangeiro eu não vou ser
Cidadão do mundo eu sou, eu sou, eu sou".


Decidi: Vou-me embora pra Pasárgada. PA que me aguarde.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Preciso

foto: Neomisia Silvestre

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.
Marina Colasanti

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Da (im) previsibilidade da vida

Romance coloca em xeque os meandros das relações familiares*

Michele Prado

Mesa para Cinco, primeiro livro de Susan Wiggs editado no Brasil, retrata com destreza os altos e baixos da vida doméstica ao revelar o drama e a revolta que uma morte prematura acarretam. Lily Robinson, jovem professora que leva uma vida regrada e independente, planejada nos mínimos detalhes, permite apenas que a amiga Crystal partilhe de sua intimidade.

Com as reviravoltas do destino, Lily vê sua vida de pernas pro ar quando perde a amiga e o ex-marido dela, o golfista Derek Maguire. A professora aproxima-se então do descompromissado Sean Maguire para educar as três crianças, agora órfãs, do casal. A partir daí, solidão, crises da adolescência e dos relacionamentos não são poupados na narrativa, mas Wiggs peca ao tornar o final do livro um tanto quanto previsível.

A autora utiliza como fio condutor a imprevisibilidade da vida, mas torna a história usual. A mocinha sofre horrores, encontra um sapo, que depois revela-se príncipe – e termina feliz para sempre. Partindo dessa óptica, o livro não passa de mais um nas prateleiras.

No entanto, o que o torna envolvente é a maneira como Wiggs faz o leitor debruçar-se sobre o texto e mergulhar na história, mesmo antevendo o seu final. É interessante como ela desnuda parte da complexa teia que envolve os relacionamentos familiares, desde as marcas que a falta de diálogo e união deixam em um indivíduo até as delícias e prazeres que somente uma família ligada por estreitos laços de amor possuem.


Mesa para Cinco
...........................
Susan Wiggs
Bertrand Brasil
448 págs.
$49


* Publicado na Revista Paradoxo

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A mancada

A fila da lotação dava voltas e mais voltas. Droga! Queria chegar logo em casa, mas estava tão cansada para ir em pé, sendo pisoteada e amassada. Decidi: vou esperar.
Coloquei meu fone no ouvido e embalada pela mpb da nova aguardei até chegar minha vez. Quando embarquei vi que tinha sobrado apenas o banco dos velhinhos e das gestantes. Droga, droga! Aposto que vai ser só eu sentar para chegar alguém e eu ter que levantar e ir amassada. Como é dura essa vida de baixinha.
Dito e feito. Quando a lotação tava cheia, mas bem cheia até ter gente se apoiando na porta, entrou um moça, blusa preta e barrigão redondinho. Olhei bem. Vai que ela tá gordinha e não grávida. Olhei bem de novo. Não, tá grávida, sim, vou levantar.
- Moça, moça! Ó, senta aqui – eu disse.
Ela me olhou bem, da cabeça aos pés. E eu já de livro, mp3 e bolsa na mão, pronta pra levantar. O olhar dela variava num misto de surpresa e raiva.
- Eu não tô gestante não! – gritou bem alto, pra todo mundo ouvir.
- Ah… tá. – respondi, voltando a sentar.
Acho que nunca fiquei tão sem graça em toda minha vida. Que vergonha, meu Deus. Que vergonha…
Juro que na hora eu queria ser uma ema, pra enfiar minha cabeça num buraco e não tirar nunca mais.

Ah! O simpático bichinho da foto é uma ema do sítio Santo Antônio, em Santa Isabel - SP.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Amadureça 10 anos em 2 meses


"Perca a pessoa que ama. Descubra-se à beira da falência. Acorde de um coma. Reconquiste uma grande amiga".



Foi mais ou menos assim que ele me contou.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Mudanças à vista

Os olhos fixam um ponto qualquer, perdidos num emaranhado de pensamentos... Eu tento escrever, tento traduzir minhas idéias em palavras.

Todos queremos uma vida melhor. Todos cultivamos, desde a meninice, a esperança no chamado "futuro promissor". Se antes o sonho era ser um jogador de futebol ou uma dançarina de balé, agora a realidade nos trás à tona e mostra às aptidões que desenvolvemos com os anos: a paixão pela comunicação.

Viramos gente grande? Acho que sim. E com o grande da idade surgem também as grandes responsabilidades, as grandes decisões, as grandes conseqüências... E os olhos se enchem de grandes lágrimas.

Sempre gostei de comparar minha vida com um rio: é preciso seguir um curso, avançar pelos obstáculos do caminho para então, desembocar num vasto oceano. Agora sua vida também é como um rio. É o Rio. É no Rio. Sei que o anseio para chegar ao oceano é grande e justamente por isso você trata de apressar a correnteza e pedir passagem por entre as pedras. E você está certo. Seu destino é a imensidão das águas.

Eu queria que o meu rio corresse em direção ao teu mar, mas a vida tem seus próprios caminhos, muito mais sábios que os nossos.

Seja feliz da maneira que você escolheu. Este é o meu desejo.


Michele Prado

Verão de 2007.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Nos braços de Morfeu

Quando o viver se transformava em noite, Morfeu, o Deus dos Sonhos, a visitava. Durante o sono, presenteava a menina com rostos sempre mutáveis, verdadeiros enigmas a serem desvendados. Algumas noites ela acordava sobressaltada, corria pegar papel e lápis para aprisionar as lembranças. Certa vez interpelou um desconhecido que adentrou seus sonhos.
- Quem és tu?
- Você me conhece. E muito bem.
- Se eu te conhecesse não iria perguntar isso assim, à toa. Quem é você?
Mas quando a menina iria obter uma nova resposta, pronto! O despertador tocou um alto e sonoro pé pém pém. Não teve como prosseguir conversa, pois suas retinas abriram-se para saudar o sol.
Outra vez um novo intruso surgiu. Este entrou sem pedir licença e foi logo rodopiando a menina em seus braços. Exultava de alegria e só conseguia dizer:
- Embarquei na plataforma verde! Embarquei!
Desta vez a menina não queria acordar, nem desvendar as palavras do estranho. Queria apenas cantar de felicidade, contagiada que estava pelo riso do outro. Rodopiava e gargalhava. Rodopiava e brilhava. De repente, sentiu a boca sedenta por água e pronto! Lá estava novamente em seu quarto, de olhos abertos. Tratou de fechá-los o mais rápido possível e tentava, inutilmente, voltar para o mundo dos sonhos. Somente quando acordou de vez é que encasquetou com a charada.
- Que raio significa “embarquei na plataforma verde”? – dizia para si mesma.
De seu templo, Morfeu a observava ansioso. Será que ela nunca perceberia tantas dicas que ele lhe dava na forma de sonhos?

Michele Prado
Verão de 2008.