
Respire fundo
e liberte as
borboletas
do estômago.
Na história, Jesse Aarons acaba de ir para a 5ª série e faz de tudo para ser o corredor mais rápido de sua turma até ser derrotado por Leslie Burke, uma menina novata no colégio e que acaba de se mudar para a região. Apesar de inicialmente sentir raiva, com o tempo o garoto vê nascer uma amizade sincera e repleta de cumplicidade, que tem como fruto a criação de Terabítia, um reino imaginário baseado em “A Viagem do Peregrino da Alvorada”, de Lewis, que cita a ilha de Terebíntia.

Na manhã seguinte conheci outra Carla, que havia chegado de Lisboa durante a madrugada. No café da manhã nos apresentamos e logo perguntei se ela queria ir para Presidente Figueiredo comigo, a Val e a Claudia. Ela adorou a ideia e, por volta das 10 horas, fomos para a rodoviária. Sentei ao seu lado no ônibus e reclamei de dor de garganta. Ela me disse que essa era uma região do corpo profundamente ligada a mudanças de identidade e de postura diante da vida e que, muito provavelmente, o que eu sentia era resultado desse processo. Verdade ou não, a Carla passou grande parte da viagem dando dicas de saúde e de remédios naturais. Ela estudava medicina alternativa, além de trabalhar como enfermeira e atriz.
No trajeto, vez por outra podíamos observar lagos e pequenos riachos cortando as árvores na beira da estrada. Passamos por um que parecia um oásis no meio da floresta e os nossos olhos se encheram de lágrimas ao contemplá-lo. Era tão bonito ver aquilo. De repente a Carla olhou pela janela e me perguntou se eu também estava emocionada. Aqui eu sinto como se uma grande mãe me abraçasse, ela me disse. Assenti com a cabeça e ficamos em um profundo silêncio.
Duas horas depois, quando chegamos ao município, paramos para comer um lanche na beira da rodovia e, em seguida, pegamos um mapa no Centro de Atendimento ao Turista (CAT) com a rota das cachoeiras. Quase ao mesmo tempo apontamos para a foto de uma gruta e decidimos que iríamos para lá. Procuramos informações sobre a sua localização, mas nada. O folder não explicava. Negociamos com um taxista e perguntamos como se chegava ao local, mas ele também não sabia. Desapontadas, resolvemos que iríamos à caverna mais próxima, a gruta Refúgio do Maroaga.
Descemos do carro e vimos uma estreita trilha entre a mata. Quando nos preparávamos para a caminhada um menino, que estava em uma espécie de ponto de ônibus na estrada, disse que não poderíamos descer sem um guia. Desconfiadíssimas de que ele queria nos enrolar, respondemos que o CAT tinha liberado a nossa entrada – o que era verdade. Ele chamou uma moça que morava na casa atrás do ponto – até então não tinha reparado na residência – e, trajando um colete da Secretaria do Turismo, ela tentou nos convencer sobre a importância de incentivar o programa de jovens talentos na região, aceitando o trabalho do guia-mirim. Ela transmitia confiança e, como cada uma gastaria apenas cinco reais, aceitamos.
A trilha era fechada e o caminho bem tortuoso. O terreno era íngreme e tínhamos que nos equilibrar em troncos e pedras, dando as mãos para não cair. Mais de uma vez meu pé atolou por completo na lama para depois ser lavado em pequenos filetes de água que cruzávamos. O barulho do vento nas folhas das árvores produzia um som assustador. Em um desses momentos, quando olhava ao redor tentando identificar o barulho que ouvia, o guia disse, tranquilamente, que naquela região existiam muitas onças. Como assim, onças? E ele só falava agora, que estávamos no coração da floresta? Que ótimo, pensei. Mas aí lembrei que muitas pessoas em Manaus haviam me dito que era raro encontrar animais selvagens, já que eles se escondiam com medo dos seres humanos. Esse pensamento me deixou mais calma.
O corpo sentia sinais de cansaço quando começamos a distinguir o som da cachoeira. Aceleramos os passos e vimos uma queda d’água, linda, caindo por entre uma fileira de grutas e cavernas. Eu e a Claudia atravessamos as pedras correndo, tirando a roupa no caminho. Não havia sensação melhor do que aquela pressão gelada nas costas. Ficamos ali algum tempo, mas o guia nos indicou outra trilha por entre as águas. Sem ele, nunca adivinharíamos o que estava por vir.
Andamos mais um pouco com os joelhos completamente submersos e
, quando alcançamos novamente a terra, ficamos descalças, sentindo o solo úmido. Aquela mistura de argila e areia era uma massagem em nossos pés cansados. Mais troncos, pedras e cipós pelo caminho. Por pouco a Val quase caiu, nos dando um susto. Depois de meia hora, mais ou menos, começamos a ouvir o som que já nos era familiar. Afastamos as folhas da nossa frente e não acreditamos no que vimos. Era a Gruta da Judéia, a da imagem do folder que ninguém soubera nos informar. Paramos, atônitas, olhando a queda que formava uma poça amarelada, rodeada de areia. Acho que foi uma das cenas mais bonitas que vi na vida.
Novamente ficamos de biquíni. Mergulhávamos e pulávamos dando gargalhadas, nos perguntando se aquilo era um sonho. De repente a Claudia parou e, boiando na água, mirou os meus olhos.
– Isso é que é vida de verdade, não o que a gente vive lá em São Paulo.
– Você tem razão – respondi, pensativa, olhando o céu.