terça-feira, 8 de julho de 2008

Nos bastidores

Diálogos que ajudam a entender a Festa Literária Internacional de Paraty



Afinal, a Flip é ou não é um evento voltado para a elite? Diversas vezes a pergunta vinha à tona nas mesas de bar, no restaurante e até mesmo nos coquetéis após as sessões de cinema da Casa da Cultura de Paraty.
No bate-papo entre pesquisadores, jornalistas, empresárias e uma ilustradora de livro infantil, o quesito moda também entrou na pauta. “Parece que as pessoas ficam horas para escolherem cuidadosamente como descombinar a roupa”, disse uma das empresárias. O estilo blasé de alguns também surgiu na roda e virou motivo de piada. Para entrar no clima era só “rebuscar o vernáculo”. Em vez de falar que determinado objeto produzido por crianças era bonito, bastava dizer: “Muito interessante essa representação do universo lúdico”. Em suma, quanto mais se utilizasse tanto um tom formal na fala quanto roupas tidas por muitos como “estilosas” – e por outros como “descombinação total” –, mais integrado à Flip a pessoa estaria.
Alguns estudantes afirmaram categoricamente que a Festa é um evento voltado para quem tem mais poder aquisitivo. “O preço do albergue é de R$ 90 por dia. Quem estuda não tem grana pra gastar assim”, explicou uma aluna de pós-graduação em Literatura. Outro motivo apresentado era a de que o evento começa em plena quarta-feira, ou seja, impossível para diversos trabalhadores acompanharem desde o início.
Na edição do ano passado, o convidado especial Will Self polemizou ao afirmar que Paraty não era um lugar real. “Como todo lugar que é dominado pelo turismo, isto aqui é inventado, é algo criado para os que vêm de fora”, afirmou o londrino em reportagem publicada no portal de notícias G1, em 5 de julho de 2007.
Segundo Aline Rocha da Silva, 19 anos, caixa de um supermercado de Paraty, as vendas aumentam em torno de 80% no período da Flip. Para ela, o evento deixa a cidade mais alegre, principalmente pelo Programa Cirandas de Paraty, desenvolvido pela Associação Casa Azul nas escolas da rede pública do município. No entanto, por trabalhar durante todo o evento, Aline acabou não participando de nenhuma atividade da programação.
De acordo com Rosangela Passos Laro, 46 anos, professora primária de uma escola de Tarituba, vila de pescadores próxima à cidade de Paraty, a Festa Literária não é só voltada para os turistas, mas também para os moradores. “A gente desenvolveu [na escola] o projeto Memória Local. Entrevistamos pessoas da comunidade e o trabalho está exposto em frente à Tenda dos Autores”, relatou.
Inspirados nos grandes nomes e personagens da literatura – este ano no homenageado Machado de Assis –, milhares de alunos participaram do projeto que tem o intuito de capacitar jovens por meio de aulas de literatura e de um ciclo de palestras, filmes e leituras para educadores e para a comunidade. Ações realizadas em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ]. Assim como Aline, Rosangela também não participou da programação, além do projeto desenvolvido na escola. De acordo com a professora, o motivo é a dificuldade em conciliar o ensino em sala de aula e os trabalhos artesanais à venda no quintal da casa de sua mãe com as atividades do evento.
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Aproveite para ler mais impressões sobre a Flip aqui.

4 comentários:

disse...

Queria tanto ir a uma FLIP, mas a desse ano não me animou, sem falar que não dá pra gastar essa grana, Paraty é cara mesmo.

Neomisia Silvestre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Neomisia Silvestre disse...

momento créditos alheios...

fotos: neomisia silvestre

Michele Prado disse...

é, Lê... não tem como ir para a Flip e não gastar uma grana.

neo: fui eu que tirei a foto, sua doida! rs.