terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cortar o tempo

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Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade


Até janeiro!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Tchauzinho


O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, se despediu da Oca hoje.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Contagem regressiva


(Ilustração de Jason Caffoe)

Já que o filme "Onde Vivem os Monstros", baseado no livro de Maurice Sendak, está previsto para estrear no Brasil apenas em 15 de janeiro de 2010, o jeito é conter a ansiedade para assistir o longa no site "Terrible Yellow Eyes", que apresenta ilustrações do clássico infantil adaptado para o cinema.

Organizado pelo ilustrador norte-americano Cory Godbey, o projeto artístico reúne na internet interpretações de 150 ilustradores e de centenas de colaboradores acerca da obra.

Para conferir as ilustrações, clique aqui.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Presente colorido


Tia, hoje eu que vou contar uma história!

Era uma vez duas princesas (a gente) que foram passear no parque num dia beeem bonito e com nuvens de sorvete no céu.



Eu e a minha sobrinha-prima Irys na história que ela inventou.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Plantação de nuvens



Olhando de cima as nuvens até parecem a plantação de algum gigante que mora no céu.

domingo, 22 de novembro de 2009

Uma bela bagunça


Só pra expressar os pensamentos
que ficam flutuando por dentro






Leia sobre o show da cantora no Brasil aqui.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Pé na estrada


Estes dias descobri uma preciosidade na web: o Journeywoman, da canadense Evelyn Hannon. Como uma espécie de guia básico para as mulheres que viajam sozinhas, o site apresenta inúmeras dicas, desde como arrumar a mala, fazer amigos na estrada, lavar roupa no banheiro do hotel até como aparar as sobrancelhas no avião.


Seguem algumas traduzidas:

Fale para os seus amigos e vizinhos que nasceram no país que você está viajando para lá. Uma avó ou uma irmã felizmente poderá fornecer algumas lições maravilhosas para você. (E, mesmo se eles não puderem sugerir contatos , certamente vão partilhar os seus conhecimentos sobre como se vestir adequadamente e ficar seguro. Esse é um momento perfeito para perguntar).”

“Uma das primeiras coisas que uma Journeywoman faz quando chega em uma nova cidade é encontrar a mercearia local. Eu faço uma pequena compra apenas para receber uma sacola com o logotipo da loja. Para evitar a aparência de turista, eu deixo minha mochila no hotel e levo a minha câmera e mapas nessa sacola de compras. Um benefício adicional – os ladrões são muito menos propensos a roubar o meu saco de compras do que a pegar minha mochila.”

Sempre leve papel higiênico de emergência ou um pacote de tecidos. Em algumas partes do mundo, ou é muito escasso ou demasiado grosso para ser utilizável.”

“Esconda dinheiro num tubo de pastilhas de vitamina C. Ladrões não se interessam por vitaminas.”


Vale a pena dar uma passadinha .

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Classificados



- Oi, eu sou o Rufus. Tenho três anos e estou à procura de uma namorada tããão bonita quanto eu. Se você tiver uma cachorrinha interessada, deixe um recado para a minha dona. Obrigado.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

24 primaveras

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Mensagem às 0h, canto de passarinho ao amanhecer, sorvete no meio da tarde, amor, felicidade, livro ilustrado, páginas em branco, recado de quem mora longe, coragem, recomeços, poesia ao pé do ouvido, flores, esperança, parabéns pra você nesta data querida, pavê da sorte, presente com laço de fita, capa de chuva em dia ensolarado, sonhos realizados: tudo cabe num abraço.

domingo, 1 de novembro de 2009

Segredo


O orvalho é apenas uma lágrima que a noite não conseguiu esconder.

sábado, 31 de outubro de 2009

A noite dos monstros

Na animação de Alê Camargo até os vampiros têm problemas para dormir.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Parque de diversões

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Ficar rodeada por livros é sempre uma diversão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Presente


Me lembro de uma vez em que debati com um amigo a viabilidade dos relacionamentos iniciados pela Internet. Não conseguia compreender muito bem até que ponto trocar mensagens com uma pessoa podia significar algo real. Me enganei. Ou melhor, com o tempo percebi que é possível sentir admiração, carinho e mais uma porção de sentimentos sem nunca ter visto o rosto ou ouvido a voz de determinada pessoa.

Apesar da impessoalidade, a tecnologia aproxima desconhecidos, revela afinidades, cria pontes. Por este blog conheci e encontrei pessoas que marcaram a minha vida de uma maneira que nunca conseguirei explicar, mantive contato com profissionais que são fonte de inspiração para o meu trabalho – e que talvez nem saibam disso – e fiz boas amizades, como com a Carina, que me indicou dois selinhos.



De acordo com as regras, eu preciso citar um brinquedo, um desenho, um programa, um cantor e um doce que tenham marcado a minha infância:

Brinquedo: Pega-peixe (é o único que me lembro agora... gostava mais de brincar na rua)
Desenho: Muppet Babies (alguém mais se contorcia de vontade de saber quem era a babá?)
Programa: O mundo de Beakman (o melhor programa do mundo!)
Cantor: Xuxa (pois é, eu adorava)
Doce: Dip'n Lik (aqueles saquinhos que vinham com pirulito e açúcar colorido dentro)

E para todas as pessoas que conheci por aqui, só me resta sempre dizer obrigada. Obrigada por me ensinarem que todas as formas de amizade são possíveis (mesmo as virtuais), pelos comentários gentis, pelas palavras reconfortantes, pelo bálsamo vindo de tão longe. Obrigada!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O essencial


"As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: 'Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que coleciona borboletas?' Mas perguntam: 'Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?' Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: 'Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...' elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso dizer-lhes: 'Vi uma casa de seiscentos contos'. Então elas exclamam: 'Que beleza!'
(...) Mas nós, nós que compreendemos a vida, nós não ligamos aos números! Gostaria de ter começado esta história à moda dos contos de fada. Teria gostado de dizer:
'Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta pouco maior que ele, e que tinha necessidade de um amigo...' Para aqueles que compreendem a vida, isto pareceria sem dúvida muito mais verdadeiro."


O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry.

domingo, 4 de outubro de 2009

Juro que vi

Esta semana as bibliotecas públicas Viriato Corrêa e Roberto Santos exibirão uma seleção de animações sobre as lendas e o folclore brasileiro, como a série “Juro Que Vi”, produzida pela Empresa de Multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro (Multirio) com a participação de alunos das escolas municipais da cidade, que opinaram sobre a história e a aparência dos personagens.



Biblioteca Pública Roberto Santos
Dia 06 (terça-feira), às 14h
Rua Cisplatina, 505 - Ipiranga - SP

Biblioteca Pública Viriato Corrêa
Dia 07 (quarta-feira), às 16h
Rua Sena Madureira, 298 - Vila Mariana - SP

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Escrita: modo de usar


"Você quer ser escritor? Abra o olho, abra o ouvido e feche a boca."


Fernando Bonassi, hoje, no evento mediado por Manuel da Costa Pinto.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vida de inseto

- ZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzz
- Plaft!
- Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

sábado, 26 de setembro de 2009

Anos incríveis

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"Quando somos crianças, somos um pouco de cada coisa. Artista, cientista, atleta, erudito. Às vezes parece que crescer é desistir dessas coisas, uma a uma. Todos nos arrependemos por coisas das quais desistimos. Algo de que sentimos falta. De que desistimos por sermos muito preguiçosos, ou por não conseguirmos nos sobressair, ou por termos medo".


Um dos pensamentos do Kevin Arnold no seriado "Anos Incríveis".

domingo, 20 de setembro de 2009

Um caldeirão de histórias

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“Por que você não escreve uma história logo?”, vira e mexe ouço de alguém. “Algum dia, quem sabe”, me limito a responder, enquanto penso que seria inútil explicar como as palavras pulam da minha mente e ganham vida nas horas mais impróprias – o que as tornam difíceis de serem escritas. Quando sento à frente do computador, disposta a desenvolver alguma ideia, na maioria das vezes não saí uma linha. A história só resolve aparecer num dia comum, durante o expediente de trabalho, quando alguém me diz baixinho: “Fulana é uma toupeira e ainda por cima orgulhosa. Não admite que errou”. Isso basta para que eu imagine uma toupeira topetuda, que fez um curso de engenharia por correspondência e arrumou a maior confusão entre os bichos da floresta.
Ainda me lembro da emoção que senti quando li no capítulo “Três maneiras de escrever para crianças”, de C. S. Lewis, que ele não criava histórias, mas as via. “Comigo, o processo assemelha-se muito mais à observação de pássaros do que o falar ou construir. Eu vejo imagens. Algumas dessas imagens têm um sabor comum, quase um mesmo aroma, que as reúne num único grupo. Fique quieto, simplesmente olhando, e elas começarão a se juntar”, conta o autor. Ao ler esse trecho o meu coração acelerou e eu pude compreender o que há tanto tempo sentia. Antes de escrever eu vejo a cena. As imagens se formam na minha cabeça e, então, eu só tenho que descrevê-las e ir juntando as lacunas. Perdi as contas de quantas vezes me propus a falar de algo, mas, quando percebi, os acontecimentos haviam tomado outro rumo, diferente do que a princípio eu queria.
E então, quando sento para escrever e sinto alguma dificuldade, me lembro das palavras acima e tento não forçar nada, apenas aguardo pacientemente as imagens surgirem. Assim, quem sabe algum dia, consigo terminar o quebra-cabeça e concluir a história que aos poucos surge em minha mente.

domingo, 13 de setembro de 2009

Compartilhe livros, músicas e poesias


O boom das redes de relacionamento também chegou aos apreciadores de livros, músicas e poesias. O site “Enjoy My Books” permite aos seus usuários reunir trechos literários, canções e participar de grupos sobre os temas.
De acordo com o diretor do projeto, Luiz Chinan, espera-se que a iniciativa se transforme em outra ferramenta de incentivo à leitura e à divulgação de bons livros.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Maktub

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Caminhávamos na praia ao entardecer. Os passos deixavam-se demorar na areia e o tempo corria mansinho, sem pressa para acontecer. “Quando viajo sozinho é como se me sacudissem e, aos poucos, fosse caindo tudo até ficar apenas o que é meu e o que sou”, me disse o Guillermo, numa mistura de espanhol com português. Eu sorri e confirmei com a cabeça, dizendo que era exatamente assim como me sentia. Longe de casa e dos rostos familiares tudo ia ficando mais nítido: os medos e anseios que eram meus e outros tantos que apenas fui aceitando categoricamente daqueles que me cercavam.
No dia seguinte, um morador da vila de pescadores me pediu para descrever as imagens que surgiam na minha mente quando me imaginava em uma floresta. Contei tudo o que via, sendo interrompida por algumas perguntas. “Tem muita luz? Como são as árvores? E a casa no meio do caminho?”. Ao terminar o relato, ele me olhou profundamente e foi delineando minha alma diante do meu rosto assombrado. Era espantoso como alguém que eu tinha acabado de conhecer conseguia me desnudar daquele jeito. “Essa sou eu, sou exatamente assim”, respondia atônita. O espanto era em dose dupla: era a segunda vez que aquilo acontecia comigo; tinha ouvido quase as mesmas coisas de um homem em outro canto do País há um ano atrás. E ambos cruzaram o meu caminho por acaso, sem eu perguntar ou dizer nada. "Existe alguém, mas ainda não está na hora", ecoava em meus ouvidos.
Um dia antes desse acontecimento, enquanto andava à beira do mar, me sentia aliviada por não ser a única em busca de algo que nem mesmo sabia o que era. “Às vezes preciso me permitir ficar um pouco longe de tudo e de todos”, expliquei ao Guillermo. O manto da noite ia se estendendo aos poucos no céu enquanto partilhávamos as agruras e as alegrias de caminharmos sós na imensidão do mundo. “Não quero ir embora”, reclamei. “Não pensa nisso agora”, ele me disse. Começamos a esfregar os pés na areia para ver a luz fluorescente dos plânctos e vimos estrelas cobrirem o chão.


domingo, 30 de agosto de 2009

Começos inesquecíveis


O escritor C. S. Lewis dedicou a sua obra “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa” para a sua afilhada, Lucy Barfield. A considero uma das dedicatórias mais bonitas que já vi.


Minha querida Lucy,

Comecei a escrever esta história para você, sem lembrar-me de que as meninas crescem mais depressa do que os livros. Resultado: agora você está muito grande para ler contos de fadas; quando o livro estiver impresso e encadernado, mais crescida estará. Mas um dia virá em que, muito mais velha, você voltará a ler histórias de fadas. Irá buscar este livro em alguma prateleira distante e sacudir-lhe o pó. Aí me dará sua opinião. É provável que, a essa altura, eu já esteja surdo demais para poder ouvi-la, ou velho demais para compreender o que você disser. Mas ainda serei o seu padrinho, muito amigo,

C. S. Lewis

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A verdade a gente inventa

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Para escrever uma matéria sobre os benefícios do trabalho voluntário, visitei algumas instituições do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, entre elas a Casa Santa Bakhita, um abrigo provisório para crianças de zero a seis anos. Nas dependências da casa conheci dois meninos, de cinco e de seis anos.
- Fala pra ela porque você está aqui – pediu a responsável pelo local a um dos garotos.
- Em vim porque queria conhecer o meu amigo! – disse o mais novo, sorrindo ao mesmo tempo em que passava o braço por cima do ombro do colega.
A cena foi tão engraçada que não pude controlar o riso. Depois alguém me segredou baixinho, ao pé do ouvido, o quanto a história dele era complicada. Seria melhor acreditar que ele estava lá apenas pela necessidade de ter um amigo.

domingo, 16 de agosto de 2009

Da terra do sol nascente







São Paulo tem dessas coisas. Ao passear no fim de semana até parece que estamos em outro país.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Os nomes de Deus

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Em seu quarto de badulaques, Rubem Alves conta que a escritora Margueritte Yourcenar o ensinou os trinta e três nomes de Deus. “É só falar o nome, ver na imaginação o que o nome diz, para que a alma se encha de uma alegria que só pode ser um pedaço de Deus... Mas é preciso ler bem devagarzinho...”, explica o autor. Achei a lista tão bonita que resolvi criar a minha própria. Aí vai: 1. Aroma de café. 2. Pôr-do-sol. 3. Olhar entre dois apaixonados. 4. Joaninha. 5. Som de cachoeira desconhecida. 6. Balanço. 7. Página em branco. 8. Nuvem. 9. Arco-íris. 10. Rede de pescador. 11. Fundo do mar. 12. Mergulho. 13. Livro antigo. 14. Abraço apertado. 15. Bom dia dito com um sorriso. 16. Reencontro entre amigos. 17. Gota de orvalho ao amanhecer. 18. Brisa suave no rosto. 19. Semente que se transforma em árvore. 20. Voo de passarinho. 21. Brócolis. 22. Canoa no meio de um rio distante. 23. Céu repleto de estrelas. 24. Sorriso de criança. 25. Histórias de velhinho. 26. Esperança. 27. Canto de pássaro em liberdade. 28. Cavalo selvagem correndo. 29. Fruto tirado do pé. 30. Cheiro de terra molhada. 31. Pés descalços tocando a areia da praia. 32. Desenho colorido. 33. Linha do horizonte.

sábado, 8 de agosto de 2009

Dobrada à moda do Porto

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Chico Buarque lê um dos belos poemas de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.



... porque o amor não é um prato que se possa comer frio.

domingo, 2 de agosto de 2009

Uma vida nas alturas

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Quando estavam construindo a casa onde moro atualmente, eu passava tardes inteiras desenhando a disposição do jardim. Imaginava um canteiro com hortênsias, margaridas e rosas de todas as cores, rodeado por um Jacarandá de galhos enormes. Sonhava em ter uma casa na árvore, para descer e subir na hora em que quisesse, assim como a Punky, a levada da breca, fazia na TV. Mas, para a minha frustração, acimentaram todo o quintal. Não deixaram um vãozinho sequer para um dente-de-leão.
Com o tempo, aprendi a cuidar das minhas próprias plantas e enchi a casa com vasos de camélia, margarida e flor de maio, mas até hoje acalento a ideia de ter um grande jardim, com grama verdinha e um pomar. A casa na árvore, no entanto, achava que só era possível em desenhos animados. Nem preciso dizer o tamanho da minha surpresa quando descobri, por acaso, uma empresa que instala casas de madeira em árvores.

Fiquei imaginando se os clientes são crianças grandes.

sábado, 25 de julho de 2009

Uma carta à moda antiga

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Em tempos em que a internet e a impessoalidade imperam, recebi pelos Correios uma carta linda, cheia de palavras e recortes coloridos.

As duas amigas

E naquele abraço cabia tanta saudade e felicidade que as duas amigas mergulharam nele por longos e afetuosos minutos. Seus abraços são sempre acompanhados de exclamações de lembranças passadas e divididas com interrogações sobre o presente futuro. Fazem planos felizes numa multiplicação impressionante. Contagiante a energia e a alegria que as fazem dançar sem se importarem com os olhares risonhos que as acompanham.
É dia de festa! Dia de dançar no meio da praça com graça, de inventar planos felizes para um futuro próximo, de falar sobre as expectativas e esperanças, das bonanças do coração. Tudo há de caber na pequena valise do tempo.
São gratas por terem se conhecido. Obra do bom e generoso acaso ou mágica do destino? Teriam se encontrado de qualquer forma, creio eu... Amizades escondidas, surpresa boa que enfeita a vida. Tem pessoas que têm essa sorte, outras não... Talvez seja um presente que nunca se mereça e agradeça sempre, sempre e sempre...

Princesa Amnésia*

* Princesa Amnésia está de férias do mundo... por enquanto só colecionando personagens poéticos e mandando cartas coloridas a amizades lindas. Mas se quiser visitá-la, o endereço é http://www.mundodaamnesia.blogspot.com/.

sábado, 18 de julho de 2009

Off


"Choveu de noite até encostar em mim."
(Manuel de Barros)



Uma histólia pla ninguém botal defeito


Há exatos 50 anos, no dia 18 de julho de 1959, Maurício de Sousa publicou a sua primeira tirinha assinada no jornal “Folha da Manhã”, dando início a uma trajetória de sucesso e a criação da dupla mais famosa – e a minha preferida – dos quadrinhos brasileiros: Cebolinha e Cascão.




As comemorações do cinquentenário incluem o documentário "Biography: Mauricio de Sousa", produzido pelo canal The Biography Channel (Bio), o lançamento do livro "MSP 50", reunindo versões da Turma da Mônica criadas por 50 artistas brasileiros, previsto para outubro deste ano, e a exposição "Maurício 50 Anos", no MuBE, trazendo tiras antigas do quadrinista e releituras de esculturas e quadros clássicos com personagens da Turma da Mônica.
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Maurício 50 Anos
Museu Brasileiro da Escultura (MuBE)
Av. Europa, 218 - Jardim Europa
De 19 de julho a 18 de agosto
De terça a domingo, das 10h às 19h
Entrada gratuita

domingo, 12 de julho de 2009

Peripécias desimportantes

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Acordou com o sol alaranjado na face e o gorjeio dos pássaros na janela. Ainda sonolenta, levantou da cama e afastou a cortina da vidraça para observar o dia. Foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e trocou de roupa, pondo-se em direção à padaria.
Com os olhos atentos àquela manhã de outono, contemplava o azul do céu em contraste com o verde das árvores e, às vezes, parava no meio do caminho, absorta no movimento das nuvens que mudavam de formato a cada segundo.
Andava na rua distribuindo sorrisos e palavras gentis a desconhecidos. “Olá”, “bom dia”, “tudo bem?”, ao que era retribuída por pessoas surpresas, imaginando de onde conheciam a tal garota. Ao notar a fisionomia confusa dos transeuntes, ela dava um sorrisinho e continuava o seu trajeto. Gostava da vida acontecendo sem nada de importante acontecer.


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sabe a garota do copo d'água?

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- Sei.
- Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

segunda-feira, 6 de julho de 2009

À sombra da beleza


Era uma vez um grande escritor que se julgava incapaz de escrever para crianças, por isso se transformou em personagem para contar a sua ideia: uma história sobre um menino que faz nascer uma flor, a maior do planeta. É assim que José Saramago narra "A Maior Flor do Mundo", o seu único livro infantil - ganhador do Título Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em 2001 - e que ganhou milhares de versões produzidas por crianças das escolas primárias de Portugal, da Espanha e de diversas partes do mundo.

O conto também ganhou vida na animação produzida por Juan Pablo Etcheverry e Chelo Loureiro, com música de Emilio Aragón.




Para ler o relato do próprio Saramago sobre a obra, clique aqui.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Por um Brasil literário

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"(...) Liberdade, espontaneidade, afetividade e fantasia são elementos que fundam a infância. Tais substâncias são também pertinentes à construção literária. Daí, a literatura ser próxima da criança. Possibilitar aos mais jovens acesso ao texto literário é garantir a presença de tais elementos – que inauguram a vida – como essenciais para o seu crescimento. Nesse sentido é indispensável a presença da literatura em todos os espaços por onde circula a infância. Todas as atividades que têm a literatura como objeto central serão promovidas para fazer do País uma sociedade leitora. O apoio de todos que assim compreendem a função literária, a proposição é indispensável. Se é um projeto literário é também uma ação política por sonhar um País mais digno."
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O trecho acima integra o manifesto “Por um Brasil Literário”, de autoria do poeta e escritor Bartolomeu Campos de Queirós, que foi lançado nesta quinta-feira (2/7) na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), com o objetivo de acolher propostas e engajar o maior número de pessoas na promoção da leitura no País.
Para aderir a iniciativa e acompanhar as ações de incentivo à leitura literária, clique aqui ou acesse o site http://www.brasilliterario.org.br/. Como diria Monteiro Lobato, "Um País se faz com homens e livros".

domingo, 21 de junho de 2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A mais nova piada nacional

Nesta semana o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão e o seu presidente, ministro Gilmar Mendes, chegou a fazer a lastimável comparação entre a atividade do jornalista e a do cozinheiro.
Enquanto isso, mensagens indignadas e com um humor escrachado circulam na Internet, como a que recebi abaixo.



... Seria cômico, se não fosse trágico.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Instruções para se desapaixonar

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Respire fundo
e liberte as
borboletas
do estômago.

domingo, 14 de junho de 2009

Uma rosa islandesa

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"Bjartar Vonir RætastEr Við Göngum BæinnBrosum Og Hlæjum GlaðirVinátta Og Þreyta MætastHöldum Upp Á DaginnOg Fögnum Tveggja Ára BiðFjarlægur Draumur FæðistBorðum Og Drekkum SaddirOg Borgum Fyrir Okkur"
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Não dá para entender nada, mas o trecho acima é da música "Ágætis Byrjun", da banda islandesa Sigur Rós. Apesar de o seu primeiro álbum "Von" ter sido lançado em 1997, somente esta semana conheci o som impressionante e belo do grupo. Desde então, não consigo parar de escutar.


sábado, 13 de junho de 2009

Sobre pontes e muros

Para C.S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, existem três maneiras de escrever para crianças: a primeira, em que o autor dá “ao público o que ele quer”, tentando identificar as suas preferências, como faria um antropólogo ou um caixeiro viajante; a segunda – praticada por Lewis Carroll, Keneth Grahame e J.R.R.Tolkien –, em que o livro publicado nasce de uma história contada de viva voz e talvez espontaneamente a uma determinada criança; e a terceira, que consiste em escrever uma história para crianças "porque é a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer", "a única que sou capaz de usar", conta o escritor. Esta mesma fórmula é utilizada por Katherine Paterson, autora de “Ponte para Terabítia”, romance escrito na tentativa de ajudar o seu filho mais novo, David, a lidar com a perda de uma amiga.

Na história, Jesse Aarons acaba de ir para a 5ª série e faz de tudo para ser o corredor mais rápido de sua turma até ser derrotado por Leslie Burke, uma menina novata no colégio e que acaba de se mudar para a região. Apesar de inicialmente sentir raiva, com o tempo o garoto vê nascer uma amizade sincera e repleta de cumplicidade, que tem como fruto a criação de Terabítia, um reino imaginário baseado em “A Viagem do Peregrino da Alvorada”, de Lewis, que cita a ilha de Terebíntia.
Ganhadora das medalhas John Newbery, em 1978, e Hans Christian Andersen, em 1998, e do Prêmio Astrid Lindgren, em 2006, o grande mérito da obra de Katherine está em tratar temas densos de maneira singela, sem subestimar os jovens leitores. Partindo do ponto de vista de Jess, a escritora norte-americana aborda as dificuldades enfrentadas na família, no colégio e nos relacionamentos como um árduo e complexo processo de amadurecimento.
Para quem se aventurar pela obra fica aqui o recado: é praticamente impossível sair ileso da leitura. Mas é este o papel de toda boa Literatura, não é mesmo?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A verdade aprisionada

Foi gerada no corpo, mas nasceu pela boca. Mal saiu para o mundo e trataram de escondê-la, tamanho foi o horror que tomou conta do vilarejo, da cidade e do país. Acorrentada na cela, os seus gritos ecoavam longe, mas eram tão baixos e miúdos que as pessoas não davam crédito ou fingiam não ouvir. Os anos foram se passando, os murmúrios findando e chegou um tempo em que todos acreditavam que o fato não passava de lenda. Ninguém desconfiava de que a verdade jazia ali, aprisionada nas profundezas.

domingo, 7 de junho de 2009

Uma viagem sem fim

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Em “Reflexão sobre uma viagem sem fim”, o escritor amazonense Milton Hatoum relata o seu encontro com Felix Delatour, um europeu que morava em um sobrado em Manaus e dava aulas de francês. “Numa primeira mirada a floresta é uma linha escura, não se consegue assimilar muita coisa. Mas no meio da escuridão há um mundo em movimento, milhões de seres expostos à luz e à sombra”, diz o professor a Hatoum, segundo o diálogo presente no conto.
Assim que cheguei à capital do Amazonas, sozinha, sabia que iria passar por situações inusitadas, mas não contava que a forma como me sentiria em relação a elas é que seria o mais importante. Quando adentrei a mata e percorri o rio numa canoa era como se eu estivesse em um santuário, sentindo a vida pulsar, latente, nas árvores, no murmúrio do vento nas folhas, no canto dos pássaros, na beleza dos peixes. A minha volta outro universo existia, desencadeando dentro de mim inúmeras sensações até então desconhecidas. Eu sentia, mas não compreendia. Apenas agora, um mês depois que retornei, consigo escrever sobre algumas coisas que vivi. A impressão que tenho é que as lembranças aqui publicadas não se apagarão com o tempo.
Quando eu parti não deixei para trás apenas a paisagem amazônica, mas um punhado de pessoas, histórias, sonhos e inquietações. Um pedaço da vida. O verde da mata, o branco da nuvem, o rosa do boto, o cinza da chuva e o púrpura do entardecer emolduravam rostos anônimos, pequenas cintilações de almas no ignoto. Lembro do Seu Maurício, um ribeirinho de 63 anos que trabalhou a vida todo como seringueiro e já no limite das forças viu toda a sua plantação de couve ser inundada pela chuva. “Antes dava 700 por semana, agora nem sete centavos”, me contou. Apesar da tragédia, ele não tinha o semblante triste; nutria uma profunda fé na vida e mantinha um estranho brilho nos olhos.
Também me recordo de um homem com uma pose arrogante e soberba, mas que soltou altas gargalhadas quando entrou comigo numa brincadeira de roda-roda com as crianças indígenas, as segurando pelos braços e girando os seus corpinhos para o alto.
Cada pessoa viaja por um motivo diferente. Conheço verdadeiros mochileiros que cruzam o país ao melhor estilo beatnik, pegando carona com caminhoneiros e dividindo a comida com estranhos pelo simples prazer de conhecer realidades distintas e de se aventurar pelo desconhecido. É tentador estar em um lugar e não dar satisfação a ninguém, ser apenas mais um rosto na multidão e vislumbrar outras formas de existir. Apesar dessa sede de culturas e de vivências, sempre acreditei que a maioria dos que se arriscam pela estrada o fazem porque estão à cata de algo maior, talvez em busca de si mesmos, num eterno ir e vir. É engraçado como passamos o tempo todo em busca de um significado e, no fim das contas, só o encontramos uns nos outros. Quando cruzamos com pessoas tão diferentes – como jovens professores que largariam tudo para lecionar em um lugar esquecido pelo País, ribeirinhos que vivem no limite da pobreza e que possuem uma sabedoria que não se aprende em nenhuma universidade do mundo, gays que ousam assumir a sua sexualidade em uma sociedade repleta de preconceitos, guias que conhecem a floresta como a palma de suas mãos, mãe e filha que passam apenas dois meses por ano juntas e uma empresária linda, inteligente e solitária – e conseguimos enxergar que podemos ser de cores, raças, credos e regiões distintas, mas no fim das contas somos todos iguais. Vivemos em um mundo de estranhos apenas esperando que alguém nos estenda a mão e nos mostre que não estamos sozinhos nessa incrível jornada que é viver.



sexta-feira, 5 de junho de 2009

Entre dois mundos

Cheguei ao hostel do centro de Manaus por volta das 16h, em pleno feriado. A cidade estava praticamente deserta e eu já estava preocupada com o que iria fazer nas próximas horas. Resolvi dar uma volta na praça da rua de cima e, para a minha surpresa, o teatro Amazonas estava aberto à visitação. Fiz um tour monitorado, conferi se ainda tinha ingressos para ver Sanson et Dalila, parei num quiosque e comprei um tacacá premiado com uma larvinha – o que achei ótimo, já que tinha uma desculpa para devolvê-lo, pois seu gosto era horrível. Quando voltei para o albergue encontrei um casal na sala, assistindo TV. Logo puxaram conversa e, trinta minutos depois, já parecia que nos conhecíamos há dias. A Carla e o Adriano me contaram que estavam na cidade para prestar um concurso de professores para trabalhar em postos avançados da Universidade Federal do Amazonas. Ela era bióloga e morava no interior do RJ e ele físico, no Paraná. Duas pessoas tão novas – 26 e 24 anos, respectivamente – e dispostas a abandonar tudo em prol do amor ao ensino. Mais tarde conheci o Rodrigo, um fisioterapeuta mineiro que também prestaria a prova.
Me sentia tão mais a vontade com eles do que com os hóspedes do hotel que eu estava. Conversamos sobre educação, mercado de trabalho, sonhos e expectativas e rimos por bobeira, observando como o Dirley – um dos responsáveis pelo albergue – sempre escutava músicas bregas, como lambada, Sula Miranda e afins. Com a Carla fui ao INPA, com o Adriano assisti uma apresentação de jazz, com o Rodrigo fui ao XIII Festival de Ópera de Manaus e à noite íamos todos juntos para o bar. Cada um deles parecia se encaixar de alguma maneira na programação que eu havia feito.
Ainda no albergue conheci a Claudia e a sua mãe, a Val, que estavam viajando a passeio. Fomos à praia da Lua e passamos o dia todo alternando entre mergulhos no rio e conversas à beira d’água. No lado em que estávamos só havia nós e mais três homens, que chegaram depois. Em determinado momento, um deles nos aconselhou a não ficarmos tão próximas a uma árvore submersa, pois no dia anterior haviam encontrado uma cobra nela. O assunto deu “pano pra manga” e em pouco tempo já conversávamos e riamos. Algumas horas depois chegou um casal de amigos desse rapaz e almoçamos todos juntos, observando o rio subir. Era impossível ficar cinco minutos ao lado deles sem dar uma gargalhada. A tarde passou ligeira entre risos e devaneios. Foi o dia mais divertido da viagem.


Na manhã seguinte conheci outra Carla, que havia chegado de Lisboa durante a madrugada. No café da manhã nos apresentamos e logo perguntei se ela queria ir para Presidente Figueiredo comigo, a Val e a Claudia. Ela adorou a ideia e, por volta das 10 horas, fomos para a rodoviária. Sentei ao seu lado no ônibus e reclamei de dor de garganta. Ela me disse que essa era uma região do corpo profundamente ligada a mudanças de identidade e de postura diante da vida e que, muito provavelmente, o que eu sentia era resultado desse processo. Verdade ou não, a Carla passou grande parte da viagem dando dicas de saúde e de remédios naturais. Ela estudava medicina alternativa, além de trabalhar como enfermeira e atriz.
No trajeto, vez por outra podíamos observar lagos e pequenos riachos cortando as árvores na beira da estrada. Passamos por um que parecia um oásis no meio da floresta e os nossos olhos se encheram de lágrimas ao contemplá-lo. Era tão bonito ver aquilo. De repente a Carla olhou pela janela e me perguntou se eu também estava emocionada. Aqui eu sinto como se uma grande mãe me abraçasse, ela me disse. Assenti com a cabeça e ficamos em um profundo silêncio.
Duas horas depois, quando chegamos ao município, paramos para comer um lanche na beira da rodovia e, em seguida, pegamos um mapa no Centro de Atendimento ao Turista (CAT) com a rota das cachoeiras. Quase ao mesmo tempo apontamos para a foto de uma gruta e decidimos que iríamos para lá. Procuramos informações sobre a sua localização, mas nada. O folder não explicava. Negociamos com um taxista e perguntamos como se chegava ao local, mas ele também não sabia. Desapontadas, resolvemos que iríamos à caverna mais próxima, a gruta Refúgio do Maroaga.
Descemos do carro e vimos uma estreita trilha entre a mata. Quando nos preparávamos para a caminhada um menino, que estava em uma espécie de ponto de ônibus na estrada, disse que não poderíamos descer sem um guia. Desconfiadíssimas de que ele queria nos enrolar, respondemos que o CAT tinha liberado a nossa entrada – o que era verdade. Ele chamou uma moça que morava na casa atrás do ponto – até então não tinha reparado na residência – e, trajando um colete da Secretaria do Turismo, ela tentou nos convencer sobre a importância de incentivar o programa de jovens talentos na região, aceitando o trabalho do guia-mirim. Ela transmitia confiança e, como cada uma gastaria apenas cinco reais, aceitamos.
A trilha era fechada e o caminho bem tortuoso. O terreno era íngreme e tínhamos que nos equilibrar em troncos e pedras, dando as mãos para não cair. Mais de uma vez meu pé atolou por completo na lama para depois ser lavado em pequenos filetes de água que cruzávamos. O barulho do vento nas folhas das árvores produzia um som assustador. Em um desses momentos, quando olhava ao redor tentando identificar o barulho que ouvia, o guia disse, tranquilamente, que naquela região existiam muitas onças. Como assim, onças? E ele só falava agora, que estávamos no coração da floresta? Que ótimo, pensei. Mas aí lembrei que muitas pessoas em Manaus haviam me dito que era raro encontrar animais selvagens, já que eles se escondiam com medo dos seres humanos. Esse pensamento me deixou mais calma.
O corpo sentia sinais de cansaço quando começamos a distinguir o som da cachoeira. Aceleramos os passos e vimos uma queda d’água, linda, caindo por entre uma fileira de grutas e cavernas. Eu e a Claudia atravessamos as pedras correndo, tirando a roupa no caminho. Não havia sensação melhor do que aquela pressão gelada nas costas. Ficamos ali algum tempo, mas o guia nos indicou outra trilha por entre as águas. Sem ele, nunca adivinharíamos o que estava por vir.
Andamos mais um pouco com os joelhos completamente submersos e, quando alcançamos novamente a terra, ficamos descalças, sentindo o solo úmido. Aquela mistura de argila e areia era uma massagem em nossos pés cansados. Mais troncos, pedras e cipós pelo caminho. Por pouco a Val quase caiu, nos dando um susto. Depois de meia hora, mais ou menos, começamos a ouvir o som que já nos era familiar. Afastamos as folhas da nossa frente e não acreditamos no que vimos. Era a Gruta da Judéia, a da imagem do folder que ninguém soubera nos informar. Paramos, atônitas, olhando a queda que formava uma poça amarelada, rodeada de areia. Acho que foi uma das cenas mais bonitas que vi na vida.
Novamente ficamos de biquíni. Mergulhávamos e pulávamos dando gargalhadas, nos perguntando se aquilo era um sonho. De repente a Claudia parou e, boiando na água, mirou os meus olhos.
– Isso é que é vida de verdade, não o que a gente vive lá em São Paulo.

– Você tem razão – respondi, pensativa, olhando o céu.

domingo, 31 de maio de 2009

Descobertas no longe

Apenas no segundo dia em que estava no hotel conheci a Christine. Até então, tinha feito todos os passeios somente com o guia e realizado grande parte das refeições sozinha. Estava na condição de jornalista e precisava me preocupar em obter algumas informações mais detalhadas. Além disso, não era a primeira vez que viajava sem companhia e sabia que mais cedo ou mais tarde conheceria pessoas legais. Não me sentia solitária, pelo contrário, me fazia bem ficar um pouco longe de tudo e de todos, apenas com as minhas próprias divagações.
Neste dia, algumas horas após o almoço, entrei num barco rumo a um assentamento indígena no alto do Rio Negro e procurei um lugar próximo à sua beira. Notei uma moça alta e loira sentada ao meu lado, quieta, observando a correnteza. Era a mesma que pela manhã eu havia trocado algumas palavras sobre a Chiquinha, uma macaquinha que insistia em pular de uma cadeira a outra enquanto líamos nas espreguiçadeiras. Logo começamos a conversar e descobri que ela também viajava sozinha, o que nos fez notar algumas afinidades. De nacionalidade alemã, fazia apenas dois anos que ela estava no Brasil, mas falava muito bem o português, com apenas alguns indícios de sotaque estrangeiro. Trabalhava em uma multinacional e em julho partiria para uma sede da empresa no Panamá. Depois desse momento nos tornamos companheiras de viagem, tomando café, almoçando e jantando juntas e conversando sobre os mais diversos assuntos. Ela me contou alguns costumes das famílias alemãs e eu a ensinei algumas palavras em português. Christine falava sobre o papel de um verdadeiro líder num cenário de crise mundial e eu tentava acompanhar o assunto, com os meus parcos conhecimentos sobre administração e liderança. Depois, era a minha vez de explicar a ela porque precisava entrevistar o gerente de operações do hotel, motivo do meu atraso para o jantar.
Me admirava com a quantidade de cerveja que ela conseguia beber em qualquer hora do dia – mesmo de manhã, como ela me contou ser hábito na Alemanha – e sentia o meu estômago embrulhar quando a via comer salsicha no café. Quem a olhasse veria uma mulher bonita, independente, inteligente e bem resolvida, dessas que não dá para precisar a idade. Ela poderia ter 27 ou 37 anos, não ousei perguntar.
No nosso último dia de hospedagem, bem cedinho, sentadas à mesa do restaurante, confessamos alguns medos e anseios. Era estranho ver como uma pessoa aparentemente tão segura de si estremecia ao imaginar como seria recepcionada em outro lugar. Éramos tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas. A fitei com um profundo respeito e, naquele momento, percebi que somente quando tiramos a couraça que nos protege conseguimos enxergar verdadeiramente o próximo como um igual.
Fiz o check-in mais cedo do que deveria e a acompanhei até o aeroporto, onde almoçamos juntas pela última vez. A esperei embarcar no avião e depois me dirigi à saída, dando sinal para o primeiro táxi que vi, rumo à segunda parte da viagem.

sábado, 30 de maio de 2009

Anotações para a vida

– A gente vai aí? – perguntei, olhando hesitante a canoa minúscula a minha frente.
O guia sorriu e disse que sim, me entregando um colete salva-vidas. Todo orgulhoso, contou que havia sido ideia dele fazer o passeio noturno sem um barco motorizado. Respirei fundo e entrei na canoa, sentindo-a balançar de um lado a outro. Ele empurrou o barquinho para a água e em seguida deu um pulo rápido para dentro dela. Nos primeiros cinco ou dez minutos – perdi completamente a noção da hora – fiquei paralisada de medo. Na minha mente oscilavam cenas de um ataque de jacaré, de um acidente com a canoa e de duas pessoas perdidas em um dos braços do Rio Negro. Apesar do movimento incessante do remo nas águas, sentia como se estivéssemos navegando em círculos no mesmo lugar. Quando finalmente ousei olhar para trás, vi o hotel distante, uma pequenina luz no meio da floresta amazônica. Ao notar o meu estremecimento, o guia deu uma risadinha e pediu para eu colocar a mão na água. Mergulhar uma parte do meu corpo no desconhecido não era uma ideia nada agradável. E se uma piranha abocanhasse a minha mão? Ok, era um delírio, não havia peixes dessa espécie naquela parte do rio, mas eu não conseguia controlar os meus pensamentos macabros. Depois de alguns segundos criei coragem... um, dois, três e pronto, toquei com as pontas dos dedos a superfície escura.
– É quente – respondi.
A temperatura elevada da água foi uma surpresa e, inesperadamente, serviu para eu acordar de alguma espécie de torpor. Aos poucos os meus músculos foram relaxando e finalmente pude notar os pequenos detalhes que me cercavam. Fechei os olhos e comecei a distinguir cada som de anfíbios, insetos e animais que ouvia. A ópera noturna, a imensidão do rio, a imponência das árvores e a incrível constatação de estar em um lugar sem rede elétrica, edifícios e poluição foram me dando a sensação de estar em outra existência.
– É incrível – balbuciei, assombrada com a riqueza da vida.
– Você sabe onde fica o Cruzeiro do Sul? – questionou o guia. Eu disse que não. Então, de repente, ele parou de remar e apontou para o firmamento.
– Está vendo aquelas estrelas ali? – perguntou, traçando um caminho no espaço. – Aquela é a constelação Cruzeiro do Sul.
Ele continuou falando, mas eu não conseguia mais prestar atenção. Era muito surreal estar com um desconhecido num sábado à noite, a quilômetros de casa, percorrendo o Rio Negro e me embrenhando pelas matas da Amazônia. Olhei ao redor tentando gravar na memória a floresta que margeava as águas e cada estrela que cintilava no céu. Me sentia tão pequena frente à grandiosidade da natureza, apenas um minúsculo ponto no universo. E, no entanto, eu estava ali, fazia parte daquilo. Ao mesmo tempo em que constatava a minha pequenez me sentia acolhida, como se uma mão invisível me balançasse no colo.
Não sei precisar quantas horas ou minutos ainda ficamos navegando. Conversamos sobre a vida, entramos em um igapó, vimos um jacaré beeem de longe e empurramos a canoa entre as árvores. Quando avistei o hotel respirei fundo novamente. Eu não queria mais voltar.