segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Árvore de Natal estelar

Aglomerado de estrelas na constelação do Unicórnio. Não é lindo?

Imagem: Observatório Europeu do Sul (ESO), retirada do G1.

domingo, 30 de novembro de 2008

Surpresa boa!

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O Ser e tecer foi convidado pela Silvana Tavano para participar de uma brincadeira superbacana. Normalmente sou avessa à correntes virtuais, mas gostei da proposta dessa. Então, vamos lá!

A primeira tarefa é listar oito desejos. Aí vão os meus:

1- quero escrever muitas histórias
2- ... e contar muitas também
3- ouvir lírios falantes
4- e encontrar o fim do arco-íris
5- quero muitas tardes de sol para eu adivinhar o formato das nuvens
6- e dar muitas gargalhadas
7- dar e receber abraços beeeem demorados
8- quando eu estiver triste, quero segurar bem forte a mão da menina que existe em mim e dizer que tudo vai ficar bem.

O segundo passo é convidar oito blogs pra continuar a corrente:

Suscitas

A cor do vento

Agora, as regras:

É preciso comentar no blog de quem te enviou o convite e dos seus convidados. Também é necessário mencionar todas as regras. E, por fim, tem que publicar o selinho do meme [a imagem que está lá em cima do post].

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Para Michel

Não, não feche os olhos. Apenas segure firme a minha mão e acompanhe a minha história. Vou ler "Sons divertidos e apavorantes" e fazer "búúú" com você a cada virar de página e toda vez que a orquestra com bruxas, fantasmas e caveiras aparecer.
O quê? Ah, o livro do "elefanquinho"? Vou pegar. Enquanto isso, senta na cadeira do médico ou anda de motoca pelos corredores do hospital... hoje pode tudo! E não ligue para aquelas pessoas que insistem em separar as nossas mãos. Já deu 21h, mas eu não vou embora. Vou te contar histórias até o dia amanhecer.
Apenas mire o meu rosto mais uma vez com aquele seu olhar doce que eu não encontro palavras para descrever. Hoje eu quero te contar uma história que não deixe os seus olhos se fecharem para sempre.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Redoma


"(..) Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.
'Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido...'
Confessou-me ainda:
'Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar.'"
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O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint- Exupéry.

domingo, 16 de novembro de 2008

Tempo


"Como um barco perde o rumo
Como uma árvore no outono perde a cor."

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Congo na mídia

Neste exato momento está acontecendo uma situação descrita como “uma das maiores catástrofes humanitárias” no Congo.

A origem do confronto ocorreu há anos. Em 1994 houve um genocídio em Ruanda considerado o mais mortífero no mundo desde a 2ª Guerra Mundial. Milhares de pessoas foram assassinadas com facões, vizinhos mataram vizinhos, famílias foram dizimadas, mulheres estupradas e crianças seqüestradas para se tornarem soldados. Agora pergunto: você viu alguma notícia de destaque sobre esse conflito entre tutsis e hutus? A maioria das que li apenas noticiaram o pedido das Nações Unidas por mais soldados para “forças de paz”.

Isso é triste, muito triste.

sábado, 8 de novembro de 2008

My blueberry nights


"Nos últimos dias tentei aprender a não confiar nas pessoas, mas estou feliz por ter fracassado. Às vezes dependemos das pessoas como se fossem um espelho para nos definirem e nos dizerem o que somos nós. E cada reflexo me faz gostar um pouco mais de mim."

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Receita

Chore um rio
Recite alguns poemas
Rascunhe palavras não ditas
E espere a tristeza passar...

[Ah, ela sempre passa...]

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Mais um*

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E eu só quero a simplicidade de viver sempre além de um mero obstáculo.
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* ou será menos um?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Da mudez à verborragia

Voltei à órbita e, desde então, tento controlar as palavras que querem pular, sôfregas, de um estado a outro: do mal-me-quer ao bem-me-quer em questão de segundos.
Ontem dormi ouvindo o tilintar da chuva batendo na janela. O dia amanheceu claro e pude enxergar tudo tão nitidamente. “A vida passa e não fica, nada deixa e nunca regressa”, escreveu o poeta. Mas ao contrário dele, não creio que vale a pena viver sem desassossegos grandes. Ao invés de sentar-me à beira do rio, somente observando o curso da correnteza, criei coragem e mergulhei profundamente nas águas, deixando-me guiar por elas. E já não questiono se um dia chegarei ao mar. Basta saber que seguimos para algum lugar.

domingo, 12 de outubro de 2008

A palavra certa

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"Atravesso a noite com um verso que não se resolve..."




cadê a chave de onde caem as palavras?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

domingo, 28 de setembro de 2008

Mudez crônica


Por que às vezes as palavras são apenas palavras...



[ao vento?]

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

"O livro sem fim"


Pintura de Carl Spitzweg (1850).

domingo, 14 de setembro de 2008

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Terror para menores

Em Coraline, livro infanto-juvenil de Neil Gaiman, autor fantasia com elementos sombrios

Na literatura infantil, quando bem explorada, um simples abrir de porta tem o poder de conduzir para terras distantes e reinos repletos de fantasia. Em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, a garota mergulha na toca do coelho e, a partir daí, conhece um chapeleiro maluco, um gato que desaparece no ar e uma lagarta que desfere sábios conselhos. Nas crônicas de C. S. Lewis, quatro crianças adentram um guarda-roupa e conhecem o reino encantado de Nárnia, onde travam batalhas em prol da justiça ao lado de animais falantes. O mesmo deslocamento ocorre com Coraline, primeiro livro de Neil Gaiman para crianças publicado no Brasil.

A artimanha literária utilizada por Gaiman recorre aos clássicos: uma porta aberta – que uma hora mostra uma parede de tijolos e noutra um corredor – conduz o leitor para uma trama de mistério e suspense em que a protagonista, que dá nome ao livro, inicia uma viagem fantástica, enfrentando situações extravagantes e assustadoras.

Freqüentemente comparado com Edgar Allan Poe, o autor de Sandman – graphic novel campeã internacional de vendas, com tiragem de dois milhões de exemplares por ano – utiliza elementos góticos e do terror para criar uma atmosfera envolvente para as mais variadas idades. Na história, Coraline [e não "Caroline", como ela mesma diz] acaba de se mudar para um apartamento numa casa antiga e se propõe a explorar o lugar. Em uma tarde chuvosa, ela consegue abrir uma porta na sala de visitas de casa, que sempre estivera trancada, e descobre um caminho para um misterioso apartamento "vazio" no quarto andar do prédio.

Para a sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado e logo ela entra em contato com um mundo muito parecido com o real, a não ser pelo fato de, aparentemente, tudo ser mais gostoso e interessante. A menina, no entanto, logo descobre que aquele mundo é um lugar aterrorizante e repleto de armadilhas.

Com esta obra, Gaiman desmistifica o conceito de que histórias infanto-juvenis são “coisa de criança” e cria um conto de fadas moderno e obscuro. O enredo inclui um gato preto, espíritos aprisionados em um espelho e até mesmo uma “outra mãe”, que deseja pregar botões nos olhos de Coraline.

As armadilhas do autor criam várias possibilidades nos labirintos da imaginação do leitor, revelando surpresas em cada um dos 13 capítulos, e mostra que a literatura é um lugar privilegiado por permitir o mergulho nas mais variadas narrativas, desmontando, inclusive, paradigmas. Além disso, as ilustrações de Dave McKean dão um tom especial ao processo narrativo, uma vez que acrescentam à obra traços angulares e sombrios.

O próprio Gaiman se considera “um grande escritor infantil”. Como reconhecimento do sucesso de seu trabalho, Coraline ganhou uma versão para o cinema adaptada pelo diretor Henry Selick [O Estranho Mundo de Jack] e pelo co-diretor Mike Cachuela, veterano ilustrador de filmes como Os incríveis e A noiva cadáver. A animação, produzida pela Pandemonium Films, será distribuída pela Disney e tem previsão de estréia, nos EUA, em fevereiro de 2009.
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Confira o teaser da animação.
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Coraline
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por Neil Gaiman
Editora Rocco
160 págs.
$ 31,00
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(Publicado na Revista Paradoxo)

domingo, 17 de agosto de 2008

Lançamento na Bienal!

Quando a gente começa a ler certas histórias descobre que o melhor jeito de viver é sempre começar.
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Conheça a autora do encantador "Como Começa?" aqui.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sobre a impermanência

Aprendi porque as nuvens mudam de lugar. Papel, fotos e objetos se prega com tarraxa, o intangível não.
Nada dura para sempre. As palavras doces, rabiscadas em um guardanapo qualquer, são exiladas numa velha caixa de presentes. Se findam na escuridão para serem escritas novamente. Assim como elas, eu também feneço. Morro para tentar reviver. E vivo um não para recomeçar.
Não sei permanecer.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Estrada


Tenho retratos espalhados pelo País e uma sensação de liberdade que voltei a aprisionar no peito.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Nos bastidores

Diálogos que ajudam a entender a Festa Literária Internacional de Paraty



Afinal, a Flip é ou não é um evento voltado para a elite? Diversas vezes a pergunta vinha à tona nas mesas de bar, no restaurante e até mesmo nos coquetéis após as sessões de cinema da Casa da Cultura de Paraty.
No bate-papo entre pesquisadores, jornalistas, empresárias e uma ilustradora de livro infantil, o quesito moda também entrou na pauta. “Parece que as pessoas ficam horas para escolherem cuidadosamente como descombinar a roupa”, disse uma das empresárias. O estilo blasé de alguns também surgiu na roda e virou motivo de piada. Para entrar no clima era só “rebuscar o vernáculo”. Em vez de falar que determinado objeto produzido por crianças era bonito, bastava dizer: “Muito interessante essa representação do universo lúdico”. Em suma, quanto mais se utilizasse tanto um tom formal na fala quanto roupas tidas por muitos como “estilosas” – e por outros como “descombinação total” –, mais integrado à Flip a pessoa estaria.
Alguns estudantes afirmaram categoricamente que a Festa é um evento voltado para quem tem mais poder aquisitivo. “O preço do albergue é de R$ 90 por dia. Quem estuda não tem grana pra gastar assim”, explicou uma aluna de pós-graduação em Literatura. Outro motivo apresentado era a de que o evento começa em plena quarta-feira, ou seja, impossível para diversos trabalhadores acompanharem desde o início.
Na edição do ano passado, o convidado especial Will Self polemizou ao afirmar que Paraty não era um lugar real. “Como todo lugar que é dominado pelo turismo, isto aqui é inventado, é algo criado para os que vêm de fora”, afirmou o londrino em reportagem publicada no portal de notícias G1, em 5 de julho de 2007.
Segundo Aline Rocha da Silva, 19 anos, caixa de um supermercado de Paraty, as vendas aumentam em torno de 80% no período da Flip. Para ela, o evento deixa a cidade mais alegre, principalmente pelo Programa Cirandas de Paraty, desenvolvido pela Associação Casa Azul nas escolas da rede pública do município. No entanto, por trabalhar durante todo o evento, Aline acabou não participando de nenhuma atividade da programação.
De acordo com Rosangela Passos Laro, 46 anos, professora primária de uma escola de Tarituba, vila de pescadores próxima à cidade de Paraty, a Festa Literária não é só voltada para os turistas, mas também para os moradores. “A gente desenvolveu [na escola] o projeto Memória Local. Entrevistamos pessoas da comunidade e o trabalho está exposto em frente à Tenda dos Autores”, relatou.
Inspirados nos grandes nomes e personagens da literatura – este ano no homenageado Machado de Assis –, milhares de alunos participaram do projeto que tem o intuito de capacitar jovens por meio de aulas de literatura e de um ciclo de palestras, filmes e leituras para educadores e para a comunidade. Ações realizadas em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ]. Assim como Aline, Rosangela também não participou da programação, além do projeto desenvolvido na escola. De acordo com a professora, o motivo é a dificuldade em conciliar o ensino em sala de aula e os trabalhos artesanais à venda no quintal da casa de sua mãe com as atividades do evento.
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Aproveite para ler mais impressões sobre a Flip aqui.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Pra bicho nenhum botar defeito


O Pantanal é uma das maiores planícies alagadas do mundo e abriga diversas espécies consideradas raras e ameaçadas de extinção. Aprender sobre a região e a importância da preservação do meio ambiente é fundamental, mas tudo isso pode ser feito de uma maneira muito mais fácil e divertida.

Fruto do trabalho do pesquisador Guilherme Mourão e da biológa Ísis Medri, o CD Nossos Bichos - Mamíferos do Pantanal oferece às crianças a possibilidade de aprender brincando sobre biologia e conservação das espécies.

Produzido pela Emprapa Pantanal e pela ONG Conservação Internacional (CI-Brasil), o material está disponível gratuitamente na internet e contém jogos interativos, imagens, além de informações adicionais sobre cada animal citado. Para fazer o download gratuito, clique aqui, preencha os dados solicitados e aguarde o link para baixar o conteúdo.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Passeio pelo Rio de Janeiro

... de antigamente!

Quer dar uma olhadinha? Clique aqui e vá para a galeria de fotos do André Costa.

Ana Maria Machado substitui Flora Süssekind na Flip

A pesquisadora Flora Süssekind cancelou, por motivos familiares, a sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty. Em seu lugar, a Flip convidou a escritora Ana Maria Machado para participar da mesa "Papéis avulsos", ao lado de Luiz Fernando Carvalho e Sérgio Paulo Rouanet.
Uma ótima escolha, não acham?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Pluralidade de gêneros marca a Flip 2008


Na edição deste ano, a literatura dialoga com suas áreas afins


Laboratório de experiências literárias, Paraty [RJ] é cidade referência em turismo cultural. Desde 2003, abriga a Festa Literária Internacional de Paraty [Flip], reconhecida pelo aconchego literário promovido pelos debates entre autores mundialmente respeitados.

Na semana passada, dia 4 de junho, a organização do evento divulgou a programação completa da sexta edição, marcada para o período de 2 a 6 de julho. Para este ano, o festival promove um diálogo entre literatura e outras áreas do conhecimento, como cinema, psicanálise e quadrinhos.

Continue lendo aqui.

domingo, 8 de junho de 2008

Blog

Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá.

Michele Prado

sábado, 7 de junho de 2008

Espantalho

Na animação de Alê Abreu, as memórias de uma velha senhora misturam-se às descobertas de uma menina apaixonada por um espantalho.
Vale a pena reservar uns minutinhos para ver.


domingo, 1 de junho de 2008

Tempo rei


Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Gilberto Gil

Todos nós reclamamos do tempo, não é? Quando alguém pergunta como estamos, respondemos como aquela cara de paisagem: “Bem, mas estou correndo muito” ou “Na correria, né?”. Nem adianta negar, vai... Eu mesma já falei e escutei isso uma porção de vezes.
Sem entrar em questões filosóficas ou esbarrar na física quântica, a verdade é que a noção de tempo (ou falta dele) é muito relativa. Quer ver só? Olhe no relógio e veja que horas são. Pronto? Conte até três e feche os olhos. Só volte a ler este texto quando você acreditar que já passou 1 minuto, ok? Então vamos lá: um, dois, três e já!


Pronto? Agora olhe no relógio novamente. Você abriu os olhos antes ou depois de transcorrido 1 minuto?


Quando eu fiz esse teste, em um curso, uma porção de gente abriu os olhos com 30 e até 15 segundos, por acreditarem ter dado o tempo estipulado. Estamos tão acostumados com a loucura do dia-a-dia que quando estamos mais tranqüilos, acreditamos que o tempo passa mais devagar.
Sei que dá pra fazer muita coisa em pouco tempo: em 30 segundos pode-se vender uma geladeira, desviar de um buraco, dar um sorriso, ganhar uma corrida, perder o metrô, e por aí vai... Mas é a maneira que eu escolho viver esses 30 segundos que faz a diferença.

Temos 24 horas por dia, mas a maioria de nós gasta esse tempo no trânsito, no trabalho e no sono. E aí, quando enfim temos um tempinho vago, passamos a maior parte dele no passado ou no futuro, nunca no hoje, embora o presente seja a única coisa que realmente temos.
Passamos a vida à cata de algo maior, um sentido que nos faça feliz. Mas a felicidade é um estado de espírito ligado no aqui e agora, nunca no ontem ou no amanhã. E a única coisa que consigo pensar é que não vamos conseguir algo diferente fazendo a mesma coisa de sempre. É preciso viver aqui, agora, já.

O pássaro e o peixe


"O pássaro de minha história eu o observo durante um dia.
Também o peixe eu o observo nesse mesmo dia.
Estamos juntos, mas com uma pequena diferença:
o pássaro está no ar, o peixe na água
e eu entre os dois - na terra".

Li o doce conto de Bartolomeu Campos Queirós observando peixe e pássaro. Sentada no banco de um parque, pude ver o encontro dos seres: cada um em seu lugar, apaixonadamente desejando-se. Esta é a história de um amor impossível, que contenta-se com os olhares, a cadência dos sons e a grandeza do querer bem.
Por que o amor é assim.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

É a vida

"Se as pessoas não sonharem mais, não criarem seu próprio mundo interior, em contraste com sua existência medíocre, não conseguirão mais sonhar".


Wolfgang Petersen, diretor do filme A História Sem Fim.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ainda sobre livros

A segunda versão da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo IBOPE a pedido do Instituto Pró-Livro, revela que a população dedica muito pouco tempo a leitura. Entre os mais de 172 milhões de brasileiros entrevistados, 45% da mostra, o que representa 77 milhões, são identificados como não-leitores, ou seja, não leram nenhum livro nos últimos três meses. Já no grupo de leitores as mulheres saem na frente. Do total, 55% são do sexo feminino.
O estudo ainda aponta a influência da família nos hábitos de leitura. Entre as crianças de 5 a 10 anos, 73% delas mencionam as mães como quem mais as estimularam a ler. Além disso, a pesquisa mostra que um em cada três leitores lembram da mãe lendo algum livro e 87% afirmam que os pais liam para eles quando estavam iniciando a prática da leitura.
Entre os livros mais lidos, a Bíblia aparece em primeiro lugar. Também integram a lista O Sítio do Pica-pau Amarelo, Harry Potter, Peter Pan e O Pequeno Príncipe.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Livros


Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

Caetano Veloso

domingo, 25 de maio de 2008

Triste história de um pintinho

Mal saiu do ovo e logo foi parar na feira. Quando o viu por lá, meu avô o comprou para me dar de presente. Com gaiola e ração em baixo do braço, eu andava toda serelepe pela casa. Pra todos eu mostrava: “Olha o meu pintinho, que lindinho, todo amarelinho!”. Aonde eu ia o Penuginha ia atrás (acho que era esse o nome dele). Todos caçoavam: “Ele pensa que você é uma galinha!”. Eu nem ligava. Ficava até orgulhosa, afinal, eu era dona de um bichinho! Mas aí ele começou a crescer e minha mãe gritava: “Como é que você vai andar com uma galinha pela casa?”. Não teve nem conversa! Um dia eu cheguei da escola e gritei: “Penuginha, ei Penuginha, cadê você?”, mas nada... Deram o meu pintinho pra vizinha. Dois dias depois recebi a notícia: o gato da dona Maria foi lá e pronto! Comeu o Penuginha.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Reencontro

Almoço à base de hambúrguer e chocolate com Coca-Cola. Ti-ti-ti em volta da mesa. Lanche queimando no fogão enquanto as lembranças afloravam. Quanta coisa engraçada, meu Deus! A rua da quadra, onde todo mundo beijava. O seu Albino, que sempre nos achava. As aulas cabuladas pra tomar café da manhã na minha casa. Os cursos de serigrafia, panificação e confeitaria. “Arranca a peruca dela e sai correndo!”, a Ju me dizia. O Rafael, Os Dunha e a versão dos losha. O tombo, o braço quebrado e o rosto ralado. “Você se preocupou mais com a moto do que comigo!”, reclamava aos risos.
A dor do parto. “Quando olhei, tinha sete tesouras penduradas na minha barriga, acredita?!”. A dor de crescer. “Não é fácil morar sozinha, sinto muito falta dos meus pais”. A saudade. “Já faz seis meses que ele foi para a Espanha”. O sentimento de não sei o quê. “Ele casou...”. A esperança. “Estamos procurando apartamento para casar”.
À tarde na varanda. Os raios de sol iluminando as faces. Os anos que voaram. E a felicidade ao lado.



amizade é isso aí.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Filosofia Hakuna Matata


"Se o mundo dá as costas para você, dê as costas para o mundo".


"Os seus problemas você deve esquecer

Isso é viver, é aprender...

Hakuna Matata!"

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Jardim



Não basta aspirar o
perfume das rosas;
é preciso aprender
a conviver com os
espinhos.

terça-feira, 13 de maio de 2008

120 anos de Abolição da Escravatura

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E ainda existe trabalho escravo no Brasil.

Saiba mais aqui.

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Uma camélia branca

... apenas para não esquecermos do símbolo do movimento abolicionista na luta contra a escravidão.

Quando a minha florescer, coloco uma imagem dela aqui.


domingo, 11 de maio de 2008

Once

A música como linguagem para um tema tão sutil e delicado.



É apenas uma vez.



agradecimentos especiais ao .lucas por me ensinar a colocar vídeo do youtube aqui.

Sobre homens e gaiolas



Após concluir o curso universitário, Christopher larga tudo – dinheiro, família e o que poderia ter numa carreira brilhante –, enfia uma mochila nas costas e segue rumo ao Alasca.

Dirigido por Sean Peen, Na Natureza Selvagem (Into The Wild, 2007) é inspirado no livro homônimo, escrito por Jon Krakauer. Nele, o jovem de 23 anos renega o passado e reescreve a própria história: torna-se Alexander Supertramp. Na estrada, Alex cruza o caminho de diversas pessoas, deixa um pouco de si e aprende o quão delicada são as relações humanas. Rompe a gaiola que o prende.

A estrada é a liberdade. Sua casa, a natureza.

Nada mais faz sentido: a lógica absurda de competir, construir uma carreira de sucesso, usar terno e um “pano colorido no pescoço”. Ter, ter e ter, quando tudo o que é preciso é ser.

Ser feliz, quem sabe, é morar em uma casa no campo, ter um emprego útil, livros, música, amar ao próximo, compartilhar a existência com alguém e filhos, talvez.

É preciso dar o nome certo as coisas e foi o que Christopher McCandless fez. Ousou libertar-se e buscar sua essência Na Natureza Selvagem.


quarta-feira, 7 de maio de 2008

Diálogos de quem fica

- Tudo bem por aí? Melhor?

- "bem" é uma palavra relativa. e as palavras pesam... como pesam. separadas por vírgulas, pontos e reticências. as mais diversas entrelinhas querendo dizer porque ou porquê. impossibilitada é palavra relativa. relato de mim, de ti. notícias que quem fora. e não volto.

- “filosofias inesperadas”... peloamordedeus!

Noutro dia...

- dia! os dias tem passado assim, com uma impressão de falta de tempo. tempo de duração. é a duração que está no tempo ou o tempo que mora na duração? o fato é que os dias têm passado sem muito tempo pra nós, que aqui estamos, a espera do tempo. li uma frase boa outro dia: "a gente mata o tempo e ele enterra a gente", não lembro de quem.

- Idiota, eu que te mandei essa frase, mas também não lembro onde li. Tenho tido a mesma sensação. Sinto os dias passarem, escorrerem por entre as mãos. A vida é só trabalhar? E o que estamos fazendo das nossas vidas?

Ah, dia!

- adia. Isso! as coisas vão sendo adiadas. independente de quem seja a frase, ela é cruel do mesmo jeito, ao mesmo tempo. cruel.

- O Relógio

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac

- seu?

- Claro que não, besta. É do Vinicius de Moraes.

- salve Vinícius!


Em parceria com Suscitas.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A árvore generosa


Clássico de 1964, A árvore generosa é um dos livros mais conhecidos do escritor e ilustrador Shel Silverstein (1930-1999). Com tradução de Fernando Sabino, a obra foi reeditada recentemente no Brasil pela editora Cosac Naify e retrata uma das mais belas histórias que já li: o amor entre um menino e uma árvore.
Além de atentar para a necessidade de uma consciência ecológica, Silverstein nos dá uma grande lição sobre o poder do verdadeiro amor.

Quando criança, o menino adorava brincar e se balançar nos galhos da árvore e os dois passavam os dias felizes por estarem juntos. Mas o tempo passou e, com ele, o menino cresceu, tornando-se egoísta e arrogante. Raramente visitava a árvore e quando o fazia, era apenas para tirar algum proveito. Mas a árvore amava tanto o menino, que ficava radiante por poder ajudá-lo, mesmo que para isso tivesse que se anular.
Por meio de grandes silêncios embalados pelos traços singelos do autor, a história mexe no fundo da alma. Não tem como não se emocionar.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Das coisas que a gente aprende na marra

Trabalhar aos sábados, domingos e feriados deixa de ser uma coisa de outro mundo;
Torna-se humanamente possível escrever três textos num único dia;
Trabalhar mais de dez horas por dia também;
Tudo é sempre pra ontem;
Sentir solidão e tristeza não são coisas de quem não tem nada pra fazer;
Dar risada e falar bobagem alivia os momentos de tensão;
É possível escrever com muito barulho ao redor;
É bem mais fácil passar por tudo isso quando existem pessoas legais por perto que ajudam e compartilham gargalhadas.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Virada Cultural

Um ano depois de todo aquele tumulto na Praça da Sé, lá estava eu na Virada Cultural 2008. Muita coisa boa pra ver, dançar e participar, mas senti como se o tempo escorresse por entre os dedos. Mal percebi já era dia. Mal percebi já tinha acabado. E olha que ainda me chamaram de "fraca" por ter ido embora às 10h30 do domingo.
Encontrei muita gente bacana, inclusive um amigo que conheci por lá, há exatamente um ano, bem no dia da Virada. Com outros já não tive a mesma sorte e acabei não vendo. Muita gente. Muita coisa legal. Poderia ficar um ano contando.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Consumo consciente

Pequenas dicas para melhorar a saúde do nosso planeta:

No ambiente de trabalho, as pessoas não precisam beber água naqueles copinhos descartáveis. Basta cada um ter uma garrafinha para encher d'água, levar pra mesa e beber o quanto quiser, até esvaziá-la e precisar repor o conteúdo no bebedouro.

Para tomar café a coisa funciona quase da mesma forma: cada um leva uma canequinha e zás! Além de ter uma xícara personalizada (escolhida por você mesmo), não há mais tantos copinhos plásticos no lixo.

Imprimir documentos desnecessários? Nem pensar! Imprima apenas aqueles que forem realmente imprescindíveis.

Pronto! Viu só como pequenas atitudes fazem a diferença? E nem vem falar que isso não funciona, porque dá certo, sim! Onde eu trabalho a gente faz tudo isso. E também nem adianta falar que é corte de gastos na empresa, porque a idéia partiu, por livre e espontânea vontade, dos funcionários.

Quer saber mais sobre consumo consciente? Clique aqui e vá para o site do Instituto Akatu.
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Comentário do dia: Depois do surto de dengue no Rio de Janeiro, da morte de um menino que caiu de um brinquedo no parquinho perto da minha casa e do caso Isabelle, só faltava ter tremor de terra em São Paulo (aliás, eu não senti).

terça-feira, 22 de abril de 2008

Daquilo que não se cura

Compridos, xaropes e pomadas são itens que qualquer médico receita para curar feridas. Mas e aquelas que cravam fundo, penetram no âmago e lá criam morada, quem e como cura?
Trazendo à tona estas questões, a Cia Confraria das Três Águas estréia, no próximo dia 03, o espetáculo "A Curandeira". Na montagem, uma curandeira busca, entre histórias e poemas, extinguir os males da alma e curar sentimentos feridos por meio de um caminho de recordações.
Com dramaturgia de Reinaldo Maia, direção de Melani Halpern, texto e atuação de Adriana Fortes, a peça narra duas histórias tradicionais e faz breve citação do texto upanishads e do Mahabharata, um dos maiores clássicos épicos da Índia. Para tanto, o grupo baseou-se nos estudos simbólicos da sabedoria sufi, cabala, hinduísmo e candomblé para refletir sobre como poderia o ser humano se religar à natureza.


Estréia 3 de maio até 1º de junho de 2008
Sábados, 21h, domingos, 20h
R$20,00
Teatro Opera Buffa
Praça Franklin Roosevelt, 82 – Consolação - São Paulo

domingo, 20 de abril de 2008

Flores


Em lilás, dourado e branco

as flores de maio descortinaram-se

abriram em abril.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Evolução das Espécies

A partir desta quinta-feira (17) é possível ler manuscritos e a versão original do livro "A Origem das Espécies", de Charles Darwin.
O naturalista britânico tornou-se conhecido muldialmente por sua teoria sobre a seleção natural.
Veja e leia aqui.

Charles Darwin

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Descoberta

A vida acontece. A vida passa. E eu estou cá, olhando, como se não fizesse parte dela. Me falta algo que eu não sei dar nome. E essa busca não se finda. Nunca.

"Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu".

A Viajante, livro A Borboleta Amarela, Rubem Braga.

terça-feira, 15 de abril de 2008

A escolha certa

Ansiedade. Incerteza. Qual o caminho certo? A estrada que não peguei ainda ressoa, vibrante, dentro de mim. Melhor não cometer novos erros. A escolha é uma dádiva, mas a consequência é inevitável. Uma escolha. Um ensinamento. E novos caminhos. A estrada que não peguei ainda ressoa em meu ouvido. O que fazer?


Passo por aqui novamente assim que eu decidir qual estrada pegar. Ou não.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Breve resumo dos dias

Eu tenho um cachorro que todo dia vai me recepcionar no portão com um abraço. É verdade. Ele faz assim: se apóia nas duas patas traseiras e as outras duas coloca uma de cada lado do meu ombro. Não sossega enquanto não faz isso. O nome dele é Rufus. Comprei uma luminária japonesa linda, com um desenho de uma andorinha pousada num galho de cerejeira, mas que não dá pra colocar no teto do meu quarto. E hoje, eu que sempre carrego guarda-chuva e blusa na bolsa, resolvi caminhar bem lentamente na garoa.


É que eu gosto de amarelo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O novo mal do século

“A síndrome de Ulisses”, de Santiago Gamboa, desterra vidas que imigram em busca de novas oportunidades*

Michele Prado

Doença psicológica provocada pela solidão e sentimento de fracasso é o diagnóstico da síndrome de Ulisses, mal que acomete milhares de imigrantes ao partirem de seu país em busca de melhores oportunidades.

No romance A síndrome de Ulisses, do colombiano Santiago Gamboa, a Paris dos subúrbios toma o lugar da Cidade Luz ao revelar a angústia dos viajantes, a maioria clandestinos, que vêem seus sonhos cederem lugar à dura realidade que os cerca. O jovem protagonista e narrador Esteban deixa a Colômbia para estudar na Universidade de Sorbonne e passa a ganhar a vida lavando pratos no porão de um restaurante enquanto cultiva o desejo de ser escritor.

O próprio Gamboa experimentou de perto essa realidade. Radicado na Europa há mais de 20 anos, deixou Bogotá para estudar em Madri e, logo em seguida, na França. Na ocasião em que esteve no Brasil, no lançamento do livro, afirmou, em entrevista, ser o livro um pouco autobiográfico. Segundo ele, para uma página parecer convincente é necessário que o autor tenha passado por certas situações que narra. Partindo dessa perspectiva, ele descreve o drama e até mesmo a beleza – por que não? – da vida longe da terra natal.

A cada vez que uma personagem adentra a história, surge um conto, recurso utilizado para descrever a trajetória daquele indivíduo como se fosse algo à parte, porém no contexto da narrativa. Existências intensas, guiadas pela sede de viver, tudo o que a vida oferece ou deixa de oferecer. O desejo de amar e ser amado, a saudade da pátria, o uso de drogas pesadas, a ingestão contínua de álcool, a avidez com que se entregam ao sexo e a cadência das palavras tornam-se expressões de um testemunho silencioso, pertencentes à pluralidade das línguas que se unem em busca de aconchego num país solitário.

O impulso mais nobre de todos, o desejo de ser escritor – o desejo que dominava minha vida –, era o impulso mais escravizante, o mais insidioso, e em certos sentidos também o mais corruptor, porque, refinado pela minha semi-educação semi-inglesa e ao deixar de ser um impulso puro, havia me dado uma idéia falsa da atividade da mente. O impulso mais nobre, naquele contexto colonial, tinha sido o mais castrador. Para ser o que queria ser, tive de deixar de ser ou sair daquilo que era. Para chegar a ser escritor tive que me desprender de muitas das primeiras idéias unidas à ambição e ao conceito de escritor que me tinha sido dado pela minha semi-educação.

Neste trecho de O Enigma da Chegada, de V.S. Naipaul, ganhador do Prêmio Nobel em 2001, o autor caribenho martela a cabeça do narrador em determinada passagem. É preciso partir do lugar em que nasceu e romper com o passado para tentar uma nova oportunidade? O que motiva essa busca? O que fazer quando sobreviver torna-se uma luta diária? A resposta para essas e outras questões só podem ser encontradas dentro de cada um de nós. No entanto, guiadas pela crença de dias melhores, milhares de pessoas continuam arriscando a sorte em terras estranhas. Se por um lado a permanência é sofrida, por outro o regresso às origens torna-se ainda pior: é a personificação da derrota.

“Vidas iluminadas pela intensidade de suas desgraças”, aponta o prefácio do livro de Gamboa. Cutucam o estômago, remexem feridas. É a síndrome de Ulisses.



A síndrome de Ulisses
....................................
por Santiago Gamboa
Editora Planeta
376 pgs.
$39,90


*Publicado na Revista Paradoxo.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Dia Internacional do Livro Infantil

Hoje é comemorado, em mais de 60 países, o Dia Internacional do Livro Infantil. A escolha da data foi feita em homenagem ao escritor Hans Christian Andersen, conhecido pelas obras O patinho feio, João e Maria, A roupa nova do imperador, dentre muitas outras.
Uma recente pesquisa, coordenada pelo psicólogo Carlos Brito, da Universidade Católica de Pernambuco, em parceria com suas alunas Karlise Maranhão Lucena e Bruna Roberta Pires Meira (leia mais aqui), divulgou que, entre outras coisas, quem lê contos infantis tem facilidade nos estudos e a imaginação mais aflorada.
A pesquisa só comprova o quanto é importante apresentar os pequeninos ao mundo dos livros e do faz de conta. Histórias são formas de compartilhar experiências, são uma ponte para a troca de carinho e amor.
Comemore essa data você também. Aproveite e leia uma boa história.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Vida de caramujo

Tem dias em que dá vontade de fechar-se dentro de si
e não sair para o mundo.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Prazeres

Canto de passarinho na janela do quarto.
Pão com manteiga na chapa e café com leite.
Deitar na grama e olhar o céu.
Comer melância e fazer campeonato de atirar sementes.
Ler leitada na cama, com chuva caindo lá fora.
Assistir filme enrolada na coberta.
Ouvir a música preferica tocar no rádio e cantar junto desafinado.
Receber um e-mail ansiosamente esperado.
Dormir mais 45 minutinhos (melhor seria se fosse 564, mas tudo bem).
Cheiro de terra molhada.
Andar pela casa de meia.
Flores no jardim (ok, também pode ser no vaso).
Céu estrelado.
Tarde ensolarada.
Arco-íris.
Jogar conversa fora na varanda.
Noite de lua cheia.
Brincar com o Rufus e a Scarlet no quintal.
Fazer "amassa-amassa" na Irys e no Vivi.
Almoçar na casa da vó.
Tomar banho quentinho após tomar uma baita chuva.


[ainda bem que tudo isso existe]

domingo, 30 de março de 2008

Não custa relembrar

Passado mais de 15 anos, o discurso de Severn Suzuki - então com 13 anos -, durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (conhecida como ECO-92), realizada entre 3 e 14 de junho de 1992, no Rio de Janeiro, continua atualíssimo - infelizmente.


video

sábado, 29 de março de 2008

Minha pequena notícia do dia


Após uma semana cansativa e uma noite de sono pior ainda, Michele Prado, 22 anos, resolveu ficar à toa na manhã de sábado. Pensando na vida, imaginou como seria se tivesse trilhado o outro caminho ao invés do que escolheu há exatos seis anos. E então, tudo seria diferente.


quinta-feira, 27 de março de 2008

À minha mãe

Entardecia. Estavámos sentadas defronte à mesa de jantar, lembrando histórias da família enquanto a vó terminava de tomar café. Não sei bem como, mas o assunto enveredou para meu primeiro dia na escola. "Eu não chorei no primeiro dia de aula, pelo contrário, eu chorava pra ir pra escola!", afirmei orgulhosa. Foi quando você me olhou fundo e disse cabisbaixa: "Até hoje eu sinto remorso por aquele dia, sabia?". Espantada, eu questionei o por quê. "Eu deveria ter ido com você até lá dentro, não ter ficado no portão, te olhando entrar lá sozinha".
Eu dei risada e disse que aquilo era bobagem. Oras, eu estava feliz por finalmente ir à escola! Se eu estivesse triste ou chorando, como as outras crianças, aí sim você teria motivos para se sentir mal, mas não foi esse o caso. Você baixou os olhos e riu um riso tímido, triste. Os olhos marejaram. Senti que de nada adiantariam minhas tentativas para apaziguar seu ser pelo ocorrido.
Talvez seja inútil tentar entender os misteriosos desígnos da alma humana. Você, em seu amor incondicional de mãe, em seu instinto protetor e incondicional de mãe, tem carregado por anos a fio um peso por acreditar que me deixou sozinha em um momento crucial de minha existência. Talvez em seu intímo paire a sensação de que é sua obrigação caminhar ao meu lado, de mãos dadas, pela vida afora. E bastou apenas um momento, em que soltou a minha mão e apenas me observou dar passos curtos à frente, para que se atormentasse pelo ato impensado.
Sabe, nem sempre para estar ao lado do outro precisamos estar de mãos dadas. Às vezes, os sentimentos mais puros e ternos, mais simples e verdadeiros, pairam exatamente na distância dos corpos. Os laços de amor presentes entre duas almas afins são muito maiores do que a vida, a geografia, o teto de casa ou até mesmo a morte. O amor é a única coisa que verdadeiramente nos une.
É chegada a hora em que iremos soltar as mãos. Sei bem que o mundo é um moinho; já triturou um bocado dos meus sonhos mesquinhos e vai continuar assim. Mas é preciso seguir em frente e tal qual a menininha que adentrou o portão da escola sozinha, temerosa e feliz, darei passos curtos, pequenos, porém ousados. E você estará observando, pronta para me socorrer caso eu precise.
Deixar as pessoas livres para projetarem seu próprio destino também é uma prova de amor e isso eu sei que você tem de sobra. Nós temos de sobra.
Iremos soltar as mãos, mas continuaremos unidas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

É tudo verdade



Começou a 13º edição do Festival de documentários É tudo verdade. Este ano, 137 títulos de todo o mundo.
Confira a programação aqui.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Começo

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é preciso enfrentar a angústia da página em branco.

quarta-feira, 19 de março de 2008

“Aquilombaram a poesia em cadernos”

Edição comemorativa de Cadernos Negros marca três décadas de negras palavras*

Michele Prado

No ano de 1978, um grupo de pessoas vinculadas à escrita freqüentava o Centro de Cultura e Arte Negra [Cecan], no bairro do Bixiga, em São Paulo. Dentre elas, a dupla formada pelo poeta Luiz Silva [pseudônimo Cuti] e pelo advogado Hugo Ferreira propôs a criação de uma antologia literária com composições em versos. No mesmo ano, oito autores uniam-se para publicar os Cadernos Negros.

Passados 30 anos da publicação das 52 páginas no tamanho brochura [10x14,5cm] do primeiro Caderno, o Quilombhoje – grupo de escritores paulistanos que tem como objetivo discutir e aprofundar a experiência afro-brasileira na literatura – lança uma edição histórica que reúne contos e poemas de 35 autores publicados durante o período. Cadernos Negros – Três Décadas traz ilustrações das capas anteriores, índice com o nome dos autores que participaram desde o primeiro exemplar, além de fotos que marcaram os eventos de lançamentos e uma coletânea constituída por análises da série.

Quilombhoje foi fundado, no final da década de 70, por Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Abelardo Rodrigues, dentre outros. A sigla do grupo é um neologismo que inclui a retomada histórica do quilombo com a palavra “bojo”. Ou seja, é uma literatura que está no bojo de um movimento maior, o Movimento Negro Nacional.

Atualmente, com a aplicação da Lei 10.639 de 2003, que obriga o ensino da história e da cultura do negro no Brasil, surgiu à tona uma polêmica discussão sobre a chamada Literatura Negra ou Afro-Brasileira. O que é Literatura Negra? A questão étnica é fator primordial na classificação dos autores? Como trabalhar e difundir essa Literatura? Segundo a atriz e escritora Cristiane Sobral, a Literatura Negra representa o negro de uma maneira diferente de como ele é apresentado no mercado. “Deixa de ser ‘um negro’ e passa a ser ‘o negro’”, explica.

Para compreender o que Cristiane afirma, basta lançar um olhar mais atento à representação do negro na mídia, constantemente carregada de preconceitos e estereótipos. Em um país multirracial como o Brasil, a cor da pele ainda influi na maneira como a sociedade estigmatiza as pessoas.

De acordo com Esmeralda Ribeiro, jornalista, escritora e atual coordenadora do Quilombhoje – ao lado de Márcio Barbosa –, “a mulher ainda é vista como empregada doméstica, apesar do alto cargo que possa ter”. Esmeralda conta que, durante um lançamento, foi interpelada com a seguinte questão: “Você copia de onde suas poesias?”. A pergunta, um tanto quanto grosseira, foi desferida por uma senhora que não acreditava que uma negra fosse capaz de dominar com maestria a linguagem literária. “É um desafio trabalhar a mulher e o ser negro. Ainda somos vistas como inferiores”, conta.

Se tomarmos por regra que os textos da Literatura Negra são escritos produzidos pelos negros sobre os próprios negros, desde o século XVIII então despontam escritores que retrataram sua vivência em versos. Como exemplo, Domingos Caldas Barbosa, Luís Gama, Cruz e Souza, Lino Guedes, Auta de Souza, Solano Trindade, dentre outros. Portanto, o termo “Literatura Negra” foi criado para dar nome há algo que já existia. “Sempre existiu. Apenas damos um olhar mais contemporâneo”, afirma Esmeralda.

Desde 1983, a organização e editoração dos Cadernos estão a cargo do Quilombhoje. Isso tem permitido que autores de todo país lancem seus escritos pela editora que leva o mesmo nome. A despeito da ampla divulgação nos meios alternativos, acadêmicos e militantes, a publicação ainda passa por dificuldades para bancar sua produção anual. Semelhante a um processo cooperativo, o grupo arca com parte dos recursos, e a outra parte é dividida pelos autores participantes.

A venda dos livros é realizada principalmente no lançamento de cada volume. Este filão, que não é oferecido pelo mercado editorial, já abriu portas até para a divulgação da produção brasileira no exterior. Foi publicada uma versão em inglês dos Cadernos Negros pela Africa World Press, nos Estados Unidos, em comemoração aos 30 anos de existência da série.

A literatura propicia a formação da identidade e da opinião do leitor. Neste caso, torna-se uma forma de resistência, um centro de transformação social. Partindo deste ponto, não restam dúvidas quanto à importância dos Cadernos Negros não só para a literatura, mas para a história brasileira. “Estamos libertando a palavra do pelourinho”, versa a poesia de Cuti. Que assim seja e continue a ser.



Cadernos Negros – Três Décadas
......................................................
Editora Quilombhoje Publicações
336 pgs.
Gratuito
Para adquirir, solicite o exemplar pelo site http://www.quilombhoje.com.br/. Em virtude da distribuição limitada, o Quilombhoje dará preferência para escolas e participantes do Seminário Cadernos Negros – Três Décadas.

*Publicado na Revista Paradoxo

segunda-feira, 17 de março de 2008

Sábado

Das 9h às 12h
Credo do Contador de Histórias

"Creio que a Imaginação pode mais que o conhecimento
Que o mito pode mais que a história.
Que os sonhos podem mais que os fatos.
Que a esperança sempre vence a experiência.
Que só o riso cura a tristeza.
E creio que o amor pode mais que a morte".


Das 14h às 18h
Lançamento: Cadernos Negros - Três Décadas

Ouvi algo mais ou menos assim:

"É difícil ser descendente de escravo, mas deve ser mais difícil ainda ser descendente de escravocrata ou traficante de escravos".
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é isso ai.

domingo, 16 de março de 2008

Pequeno Príncipe



- Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!
E um pouco mais tarde acrescentaste:
- Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol...
- Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?
Mas o principezinho não respondeu.

(...)


Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande..." E, deitado na relva, ele chorou.

O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 11 de março de 2008

A menina e o vento

Era uma vez uma menina que adorava prender os momentos. Quando ela se sentia bem tristinha, com uma dor que atravessava o peito, corria no seu baú de tesouros e de lá tirava um lindo documento. Comtemplava corações desenhados, nomes grifados e isso bastava para que ela sentisse o amor que ali havia depositado. A verdade é que ela tinha um grande segredo: conseguia manter nos objetos os sentimentos que as pessoas desejavam.
Nos dias bem alegres, em que parece que o sol deixa de morar no céu para viver dentro da gente, ela tratava de pegar seu bauzinho e guardar a felicidade bem direitinho. Assim, ela teria bons sentimentos para sempre.
Até que um dia, quando andava à toa pela rua, ouviu dona Marica, a vizinha da frente, dizer que o vento leva e traz aqueles que amamos. Então a menina teve uma idéia: se ela podia prender os sentimentos, também podia amarrar esse tal de vento, assim ele não levaria ninguém que ela gostava.
Comprou um vidrinho, desses cheios de desenhos, e lá se foi, morro acima à procura do vento. Gritava, chamava e até cantava, mas nada do vento ventar.
Quando já estava desistindo do feito, sentiu uma brisa soprar. Os cabelos remexeram-se, formaram desenhos no ar. A brisa foi ficando mais forte e balançou galhos secos, folhas e flores. Logo o vento tratou de carregar sementes pelo ar. Notando a surpresa da menina, ele disse quase num sussuro: “preciso espalhar a vida por todos os cantos. Só assim a natureza cresce e as flores amanhecem”.
A menina se encantou com a profissão tão nobre do vento: distribuir sementes, conduzir nuvens, direcionar a chuva. E ela o amou com tal intensidade que queria se sentir balançada para sempre. Mas o vento não podia ficar. “É preciso seguir em frente”, ele dizia.
Com o coração pequenininho, ela chorou até seu vestido ficar encharcado de lágrimas. Como podia uma dor mais forte do que um joelho esfolado, um arranhão no braço ou um dedo quebrado? Foi aí que ela contou seu segredo: “olha vento, eu trouxe um vidrinho pra te aprisionar, mas como você precisa ventar não vou mais fazer isso”. O vento riu da idéia da menina e se encheu de ar até inchar de tanto orgulho. Claro que ela não podia prendê-lo, mas ele ficou feliz por ela decidir deixá-lo livre, mesmo que sentisse saudade.
“Olha menina, eu também tenho um segredo! É que eu sou o ar em movimento! E assim como o ar, eu também estou em toda parte. Cada vez que você sentir saudade lembre-se que estarei sempre por perto e nós nunca vamos nos separar”.
Surpresa, a menina sorriu. Não cabia em si de tanta felicidade. Gargalhou, rodopiou e cantou de braços abertos.
Agora não precisava de vidros, caixinhas nem cartinhas. Era só lembrar do vento para saber que logo ele estaria por perto. E para sempre.

sábado, 8 de março de 2008

Dia das mulheres

Acabei de voltar do salão de cabeleireiro. Não, não foi para comemorar o 8 de março, apenas precisava cortar as pontas ressecadas do cabelo.
Vou ao mesmo salão desde os 15 anos, quando o dono atendia a clientela num cômodo nos fundos da casa dele. Nunca ninguém tinha acertado cortar meu cabelo do jeitinho que eu queria e ele acertou, assim, de primeira. Claro que eu só podia continuar indo lá. Ele acompanhou o início e o término de um namoro que durou quase 3 anos, o fim do ensino médio, os primeiros dias na universidade, viu minhas olheiras no período de TCC, depois a conclusão da graduação, a adaptação no mercado de trabalho e a insegurança na profissão. Eu, por minha vez, vi paulatinamente cada nova tatuagem que ele fazia, as muitas mudanças no visual, a iniciativa em abrir um salão num lugar melhor, o crescimento da clientela, as reformas até ele chegar naquilo que chamamos de "salão de luxo" (ou pelo menos algo assim).
Hoje, quando entrei lá, olhei vislumbrada as muitas mudanças que ocorreram (para melhor). Mas, em contrapartida, me senti um peixinho fora d'água. Ao meu redor cremes enfileirados numa vitrine de vidro, com luzes na parte superior, ao fundo de uma parede lilás em grafiato, aparelhos de última geração, nem sei pra que serviam. Mulheres, várias delas, com uma única preocupação: a beleza. Toalhas no cabelo, misturebas com um cheiro horrível, bob, escova, unhas, tintura, sem falar nos comentários da vida alheia.
Não que eu não goste de me cuidar, pelo contrário. Mas me incomoda essa escravidão às tendências da moda, essa eterna necessidade de ser bela, custe o que custar. Essa semana li no jornal que a nova onda do sexo feminino é cortar o cabelo igualzinho o da Katie Holmes. Nada de pedir corte reto ou desfiado, só chegar no salão e dizer: "Corta igualzinho o daquela mulher do Tom Cruise".
Acredito que as pessoas precisam se cuidar, sim, até para valorizar a auto-estima, afinal, quem nunca se sentiu super poderosa com um corte novo ou uma tintura diferente que atire a primeira pedra! Mas, como disse, o problema é quando determinadas mulheres viram reféns da beleza e fazem disso sua razão de viver. Conheço algumas assim e, acredite, é deprimente. Inteligencia pra quê? O negócio é viver impecável, salto alto e maquiagem forever! Sair de casa sem baton, nem em sonho.
Um dia, tive o desprazer de ouvir alguém dizer: "tem que se arrumar, amiga - elas sempre dão um jeito de acrescentar a palavra AMIGA na frase -, assim as chances de arrumar um cara gato e musculoso, com um carrão e uma baita carteira pra te bancar aumentam. Cara que tem grana gostar de mulher estilo 'paty', é preciso sempre estar impecável". Lembro que a olhei com dó. Ela deveria estar fazendo o mesmo, olhando minha sapatilha, minha calça jeans com a blusinha folgadinha e também tenha se apiedado de mim, por isso resolveu dar os sábios conselhos.
Claro que toda mulher tem uma pontinha de inveja (tá, pra falar a verdade é uma pontona) daqueles mulherões tipo capa de revista, sem nenhum sinal de celulite ou estria. Mas, onde fica o estilo próprio, a vontade de abdicar de saltos porque salto alto incomoda e dá uma baita dor no pé, ou não querer levantar mais cedo da cama para dar tempo de se maquiar?
Pra mim, mulherão mesmo são aquelas que não poupam o peito, não temem a luta de cada dia. Saem cedo pra trabalhar, voltam tarde e ainda dão conta dos afazeres domésticos. Aquelas que se sacrificam pelos filhos, que fazem malabarismo com o orçamento doméstico e temem, mais que tudo, depender financeiramente de um homem. Que são vaidosas na medida certa. Que não fazem do espelho seu fiel conselheiro.
Mulherão mesmo são aquelas que sabem respeitar - muitas vezes inconscientemente - a luta de tantas que no passado, foram queimadas dentro de uma fábrica têxtil porque ousaram exigir seus direitos, ou as que se negaram esperar um bom partido (o tipo com a carteira recheada) que as bancassem, ou ainda aquelas que no dia-a-dia trabalham para mostrar sua competência numa empresa repleta de homens machistas.

sexta-feira, 7 de março de 2008

"... e a velha a fiar!"

Desde tempos imemoriais, a oralidade desempenha um papel central na perpetuação de contos e causos. Como parte desta tradição oral, as fiandeiras sempre são lembradas como ótimas contadoras de histórias, já que durante o trabalho de fiação as mulheres mais velhas transmitem suas experiências às mais novas.
O ato de fiar sempre representou uma espécie de “trabalho mítico”. Na Grécia Antiga, três deusas conhecidas como Moiras, ou Parcas, determinavam o futuro dos homens por meio da tecelagem. Fiandeiras do destino, eram responsáveis pelo nascimento, tempo de vida e morte das criaturas. Nos contos de fada, o duende Rumpelstiltskin transformava em uma roca palha em ouro. E quem não se lembra da clássica música do Los Primos, A velha a fiar?
Adentrando esse universo mágico, As Meninas do Conto iniciam amanhã, no Sesc Avenida Paulista, nova temporada do espetáculo As Velhas Fiandeiras. Baseada nos contos As Fiandeiras, dos irmãos Grimm, e As Três Velhas, de Câmara Cascudo, a montagem conta a história de uma menina que não gostava de fiar. Até que um dia ela é levada para o castelo da rainha e se vê obrigada a fiar uma grande quantidade de lã. Lá, ela conhece três velhas muito esquisitas que a ajudam a mudar o seu destino.
Formado em 1995, o grupo teatral se dedica à pesquisa e à encenação de narrativas que fazem parte do imaginário popular. Em 2004, no Teatro Alfa, estrearam As Velhas Fiandeiras; no mesmo ano, o espetáculo recebeu o Prêmio APCA como melhor espetáculo infantil. Atualmente, recebeu oito indicações para o Prêmio Coca-Cola Femsa: Melhor Espetáculo, Melhor Autor, Melhor Diretor, Melhor Cenografia, Melhor Figurino, Melhor Iluminação, Melhor Música e Melhor Produção.


As Velhas Fiandeiras
De 08 a 30 de março
Sábado e domingo, às 16h.
R$ 8,00
SESC Avenida Paulista
Avenida Paulista, 119

quinta-feira, 6 de março de 2008

Procura-se uma janela

meu canto, meu quarto.

… porque eu preciso ver os raios luminosos que emanam do astro-rei, sentir a brisa acariciar minha face, balançar meus cabelos e adivinhar os desenhos que se formam nas nuvens para saber que estou viva. E que ainda tenho muito o que viver.

[tá sufocante demais aqui]

terça-feira, 4 de março de 2008

T, de tecer

Finos fios de seda fiados, torcidos e trançados
Tecem acontecimentos de vivências e ciências
Palavras translúcidas dispostas no tudo do ser
Deixam ver o eu de dentro, o lado do avesso
Reações razões canções
Composições da vida
A compor linhas finas
Como a de um anzol
Fisgar momentos
Prender imagens
Sentir por dentro
Alegrias vividas
Tristezas sentidas
E o tudo presente
No dia presente
Tecer rumos
Não mais que isso
E ao chegar no
Fim da linha
Conjugar viver
No pretérito perfeito


o "T" saiu um tanto torto, mas valeu a tentativa do exercício de redação (sim, eu faço os exercícios dos livros).

segunda-feira, 3 de março de 2008

Não me canso de ver


Em cartaz na Mostra de Cinema Japonês, no CCBB.
Confira a programação completa aqui

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Flores da liberdade

As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura revela segredos de nossa história

Michele Prado

Foto: divulgação
Em 1998, enquanto caminhava pelo jardim histórico da Fundação Casa de Rui Barbosa, Eduardo Silva notou a presença de três pés de camélia. Imediatamente lembrou-se de que havia lido certa vez em um documento, do próprio Rui Barbosa, algo sobre aquele tipo de flor. Como pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq], Silva decidiu resgatar uma espécie de ligação secreta entre o Quilombo do Leblon, os negros, a Confederação Abolicionista e a princesa Isabel. Como símbolo de uma luta subversiva, uma flor rara que necessita de cuidados específicos tal como a liberdade no final do século XIX, período de forte embate contra o fim da escravidão.

Após quatro anos de pesquisa, Silva publicou o livro As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura. Em entrevista exclusiva à Paradoxo, o autor conta detalhes desse trabalho que traz à tona um período da história em que os próprios negros lutaram pela liberdade.

Revista Paradoxo – Em seu livro você estabelece uma diferença entre “quilombo rompimento” e “quilombo abolicionista”. Explique a discrepância entre esses dois conceitos.
Eduardo Silva –
É tudo muito simples. Como o próprio nome indica, no caso do “quilombo rompimento” ou “quilombo tradicional”, o indivíduo rompe com a sociedade que o oprime, foge para o mato, para um lugar bem longe e inacessível, e tenta fundar uma outra comunidade ou sociedade mais agradável para se viver. Esse é o caso do famoso Quilombo dos Palmares. No caso do “quilombo abolicionista”, o objetivo não é romper com a sociedade escravista e se isolar no mato, mas transformar a própria sociedade escravista por dentro. Revolucionar a velha sociedade escravista e transformá-la em outra coisa. Esse foi o caso do Quilombo do Leblon, no Rio de janeiro, do Quilombo do Jabaquara, em São Paulo, e de tantos outros espalhados pelo Brasil.

RP – Como as camélias se tornaram símbolo do movimento abolicionista?
ES – Não podemos saber exatamente como, porque tudo isso era uma questão guardada no maior segredo. A camélia era o símbolo de um movimento subterrâneo, underground, subversivo mesmo. Proteger escravos fugidos, dar abrigo a quilombolas, era contra as leis vigentes e dava processo, cadeia, multa, tudo de ruim. Só a multa podia chegar a um conto de réis. Por isso, a turma abolicionista fazia o maior segredo. Mas não podemos esquecer que a flor é tradicional no Japão, de onde certamente já chegou com fama de árvore sagrada, a primeira a florir depois do longo e terrível inverno, aquela que anuncia o início da primavera. Não podemos esquecer também que “A dama das camélias”, de Alexandre Dumas Filho, era uma das peças de teatro de maior sucesso do Rio de Janeiro da época.

RP – A flor então passou a ser uma forma de resistência?
ES –
Claro, todo movimento político, todo partido, precisa de um símbolo que o represente. O genial dos fugitivos do Leblon foi a capacidade de fazer as alianças necessárias com o mundo político da época, juntando os maiores abolicionistas e chegando até a princesa Isabel. Eu procuro mostrar esse processo no livro [As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura], mas você pode imaginar a própria “Princesa Imperial Regente” aparecer em público usando uma camélia produzida no Quilombo do Leblon? O mundo político veio abaixo, e não era para menos.

RP – Qual a participação do Quilombo do Leblon no processo da abolição da escravatura?
ES
  Você consegue pensar em um quilombo especializado na produção de camélias? Era isso que dava força simbólica às camélias, que de flor romântica e inocente, virou casaca e passou a significar um movimento altamente subversivo, a luta pela liberdade imediata e incondicional. “Liberdade já”, eles gritavam. A turma do Leblon era da pesada.

RP – Esse quilombo contava com a proteção da princesa Isabel? Por quê?
ES –
Sem qualquer sombra de dúvida. Contava com a proteção da princesa Isabel e, podemos dizer, com a discreta simpatia do Imperador D. Pedro II. Descobrimos que a princesa recebia em segredo braçadas e mais braçadas de camélias. E ela sabia muito bem de onde vinham aquelas flores e o que elas significavam. A princesa também protegia escravos fugidos em seu palácio. Sobre isso, como procuro mostrar, não paira qualquer dúvida. Eu mostro, inclusive, os depoimentos de André Rebouças e José Carlos do Patrocínio, os dois grandes intelectuais negros do período.

RP  O que motivou sua pesquisa sobre as camélias?
ES –
Quem leu  o livro conhece bem essa história. Um belo dia, atravessando o Jardim histórico da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, acabei notando, pela primeira vez,  a presença de três pés de camélia estrategicamente plantados. A partir desse pequeno detalhe, fui descobrindo aos poucos a trama toda que envolvia Rui Barbosa, a princesa e muitos outros. Mas o importante não é só a questão simbólica das camélias. O quilombo do Leblon nos mostra que a abolição foi uma conquista muito mais rica, complexa e interessante do que estávamos habituados a pensar, e contou com a participação ativa do próprio escravo.

RP – Após As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura ser publicado, o movimento negro passou a utilizar as camélias como símbolo de igualdade racial, inclusive existe o Prêmio Camélia da Liberdade. Como você se sente ao ver que seu trabalho resgatou parte importante da nossa história?
ES –
Eu vou contar um segredo. Logo que o livro saiu, senti que houve uma repercussão muito interessante, particularmente entre colegas e militantes do movimento negro. Alguns estranharam logo de cara, mas depois a ficha foi caindo aos poucos. Outros foram mais rápidos e logo perceberam a importância do símbolo revelado pela pesquisa e, muito delicadamente, começaram a me sondar procurando saber se haveria algum problema de direitos autorais, ou mesmo se seria possível o uso das camélias em campanhas pela igualdade racial. Claro que não havia problema algum. Aliás, a flor não é minha nem de ninguém. Eu sou apenas um modesto pesquisador, um batalhador na pedreira dos arquivos, que acabou, por pura sorte, descobrindo uma ponta dessa história fantástica. Posso ter sido o veículo, mas não inventei nada. A simbologia das camélias refere-se à deusa Clio, pertencente à História do Brasil, à história do povo brasileiro e, mais particularmente, à história do povo negro.



As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura
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por Eduardo Silva
Compahia das Letras
144 págs.
$36,50


Entrevista publicada na Revista Paradoxo.