sábado, 30 de maio de 2009

Anotações para a vida

– A gente vai aí? – perguntei, olhando hesitante a canoa minúscula a minha frente.
O guia sorriu e disse que sim, me entregando um colete salva-vidas. Todo orgulhoso, contou que havia sido ideia dele fazer o passeio noturno sem um barco motorizado. Respirei fundo e entrei na canoa, sentindo-a balançar de um lado a outro. Ele empurrou o barquinho para a água e em seguida deu um pulo rápido para dentro dela. Nos primeiros cinco ou dez minutos – perdi completamente a noção da hora – fiquei paralisada de medo. Na minha mente oscilavam cenas de um ataque de jacaré, de um acidente com a canoa e de duas pessoas perdidas em um dos braços do Rio Negro. Apesar do movimento incessante do remo nas águas, sentia como se estivéssemos navegando em círculos no mesmo lugar. Quando finalmente ousei olhar para trás, vi o hotel distante, uma pequenina luz no meio da floresta amazônica. Ao notar o meu estremecimento, o guia deu uma risadinha e pediu para eu colocar a mão na água. Mergulhar uma parte do meu corpo no desconhecido não era uma ideia nada agradável. E se uma piranha abocanhasse a minha mão? Ok, era um delírio, não havia peixes dessa espécie naquela parte do rio, mas eu não conseguia controlar os meus pensamentos macabros. Depois de alguns segundos criei coragem... um, dois, três e pronto, toquei com as pontas dos dedos a superfície escura.
– É quente – respondi.
A temperatura elevada da água foi uma surpresa e, inesperadamente, serviu para eu acordar de alguma espécie de torpor. Aos poucos os meus músculos foram relaxando e finalmente pude notar os pequenos detalhes que me cercavam. Fechei os olhos e comecei a distinguir cada som de anfíbios, insetos e animais que ouvia. A ópera noturna, a imensidão do rio, a imponência das árvores e a incrível constatação de estar em um lugar sem rede elétrica, edifícios e poluição foram me dando a sensação de estar em outra existência.
– É incrível – balbuciei, assombrada com a riqueza da vida.
– Você sabe onde fica o Cruzeiro do Sul? – questionou o guia. Eu disse que não. Então, de repente, ele parou de remar e apontou para o firmamento.
– Está vendo aquelas estrelas ali? – perguntou, traçando um caminho no espaço. – Aquela é a constelação Cruzeiro do Sul.
Ele continuou falando, mas eu não conseguia mais prestar atenção. Era muito surreal estar com um desconhecido num sábado à noite, a quilômetros de casa, percorrendo o Rio Negro e me embrenhando pelas matas da Amazônia. Olhei ao redor tentando gravar na memória a floresta que margeava as águas e cada estrela que cintilava no céu. Me sentia tão pequena frente à grandiosidade da natureza, apenas um minúsculo ponto no universo. E, no entanto, eu estava ali, fazia parte daquilo. Ao mesmo tempo em que constatava a minha pequenez me sentia acolhida, como se uma mão invisível me balançasse no colo.
Não sei precisar quantas horas ou minutos ainda ficamos navegando. Conversamos sobre a vida, entramos em um igapó, vimos um jacaré beeem de longe e empurramos a canoa entre as árvores. Quando avistei o hotel respirei fundo novamente. Eu não queria mais voltar.

2 comentários:

Raoní Santos disse...

Como é bom ler um texto escrito por alguém que sabe escrever. me senti na canoa, acho ate que eu abaixei a minha mao para encostar na água, droga... era o tapete do meu quarto.

E é engraçado, como nos sentimos pequenos perante essa beleza toda e como me sinto grande por que faço parte dela. Mas a coisa começa a ficar boa mesmo quando conseguimos enxergar toda essa beleza até nas pequenas coisas da vida....

e por ai vai..

VBeijonnnn

.leticia santinon disse...

Onde você está, chuchu?