sexta-feira, 5 de junho de 2009

Entre dois mundos

Cheguei ao hostel do centro de Manaus por volta das 16h, em pleno feriado. A cidade estava praticamente deserta e eu já estava preocupada com o que iria fazer nas próximas horas. Resolvi dar uma volta na praça da rua de cima e, para a minha surpresa, o teatro Amazonas estava aberto à visitação. Fiz um tour monitorado, conferi se ainda tinha ingressos para ver Sanson et Dalila, parei num quiosque e comprei um tacacá premiado com uma larvinha – o que achei ótimo, já que tinha uma desculpa para devolvê-lo, pois seu gosto era horrível. Quando voltei para o albergue encontrei um casal na sala, assistindo TV. Logo puxaram conversa e, trinta minutos depois, já parecia que nos conhecíamos há dias. A Carla e o Adriano me contaram que estavam na cidade para prestar um concurso de professores para trabalhar em postos avançados da Universidade Federal do Amazonas. Ela era bióloga e morava no interior do RJ e ele físico, no Paraná. Duas pessoas tão novas – 26 e 24 anos, respectivamente – e dispostas a abandonar tudo em prol do amor ao ensino. Mais tarde conheci o Rodrigo, um fisioterapeuta mineiro que também prestaria a prova.
Me sentia tão mais a vontade com eles do que com os hóspedes do hotel que eu estava. Conversamos sobre educação, mercado de trabalho, sonhos e expectativas e rimos por bobeira, observando como o Dirley – um dos responsáveis pelo albergue – sempre escutava músicas bregas, como lambada, Sula Miranda e afins. Com a Carla fui ao INPA, com o Adriano assisti uma apresentação de jazz, com o Rodrigo fui ao XIII Festival de Ópera de Manaus e à noite íamos todos juntos para o bar. Cada um deles parecia se encaixar de alguma maneira na programação que eu havia feito.
Ainda no albergue conheci a Claudia e a sua mãe, a Val, que estavam viajando a passeio. Fomos à praia da Lua e passamos o dia todo alternando entre mergulhos no rio e conversas à beira d’água. No lado em que estávamos só havia nós e mais três homens, que chegaram depois. Em determinado momento, um deles nos aconselhou a não ficarmos tão próximas a uma árvore submersa, pois no dia anterior haviam encontrado uma cobra nela. O assunto deu “pano pra manga” e em pouco tempo já conversávamos e riamos. Algumas horas depois chegou um casal de amigos desse rapaz e almoçamos todos juntos, observando o rio subir. Era impossível ficar cinco minutos ao lado deles sem dar uma gargalhada. A tarde passou ligeira entre risos e devaneios. Foi o dia mais divertido da viagem.

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Na manhã seguinte conheci outra Carla, que havia chegado de Lisboa durante a madrugada. No café da manhã nos apresentamos e logo perguntei se ela queria ir para Presidente Figueiredo comigo, a Val e a Claudia. Ela adorou a ideia e, por volta das 10 horas, fomos para a rodoviária. Sentei ao seu lado no ônibus e reclamei de dor de garganta. Ela me disse que essa era uma região do corpo profundamente ligada a mudanças de identidade e de postura diante da vida e que, muito provavelmente, o que eu sentia era resultado desse processo. Verdade ou não, a Carla passou grande parte da viagem dando dicas de saúde e de remédios naturais. Ela estudava medicina alternativa, além de trabalhar como enfermeira e atriz.
No trajeto, vez por outra podíamos observar lagos e pequenos riachos cortando as árvores na beira da estrada. Passamos por um que parecia um oásis no meio da floresta e os nossos olhos se encheram de lágrimas ao contemplá-lo. Era tão bonito ver aquilo. De repente a Carla olhou pela janela e me perguntou se eu também estava emocionada. Aqui eu sinto como se uma grande mãe me abraçasse, ela me disse. Assenti com a cabeça e ficamos em um profundo silêncio.
Duas horas depois, quando chegamos ao município, paramos para comer um lanche na beira da rodovia e, em seguida, pegamos um mapa no Centro de Atendimento ao Turista (CAT) com a rota das cachoeiras. Quase ao mesmo tempo apontamos para a foto de uma gruta e decidimos que iríamos para lá. Procuramos informações sobre a sua localização, mas nada. O folder não explicava. Negociamos com um taxista e perguntamos como se chegava ao local, mas ele também não sabia. Desapontadas, resolvemos que iríamos à caverna mais próxima, a gruta Refúgio do Maroaga.
Descemos do carro e vimos uma estreita trilha entre a mata. Quando nos preparávamos para a caminhada um menino, que estava em uma espécie de ponto de ônibus na estrada, disse que não poderíamos descer sem um guia. Desconfiadíssimas de que ele queria nos enrolar, respondemos que o CAT tinha liberado a nossa entrada – o que era verdade. Ele chamou uma moça que morava na casa atrás do ponto – até então não tinha reparado na residência – e, trajando um colete da Secretaria do Turismo, ela tentou nos convencer sobre a importância de incentivar o programa de jovens talentos na região, aceitando o trabalho do guia-mirim. Ela transmitia confiança e, como cada uma gastaria apenas cinco reais, aceitamos.
A trilha era fechada e o caminho bem tortuoso. O terreno era íngreme e tínhamos que nos equilibrar em troncos e pedras, dando as mãos para não cair. Mais de uma vez meu pé atolou por completo na lama para depois ser lavado em pequenos filetes de água que cruzávamos. O barulho do vento nas folhas das árvores produzia um som assustador. Em um desses momentos, quando olhava ao redor tentando identificar o barulho que ouvia, o guia disse, tranquilamente, que naquela região existiam muitas onças. Como assim, onças? E ele só falava agora, que estávamos no coração da floresta? Que ótimo, pensei. Mas aí lembrei que muitas pessoas em Manaus haviam me dito que era raro encontrar animais selvagens, já que eles se escondiam com medo dos seres humanos. Esse pensamento me deixou mais calma.
O corpo sentia sinais de cansaço quando começamos a distinguir o som da cachoeira. Aceleramos os passos e vimos uma queda d’água, linda, caindo por entre uma fileira de grutas e cavernas. Eu e a Claudia atravessamos as pedras correndo, tirando a roupa no caminho. Não havia sensação melhor do que aquela pressão gelada nas costas. Ficamos ali algum tempo, mas o guia nos indicou outra trilha por entre as águas. Sem ele, nunca adivinharíamos o que estava por vir.
Andamos mais um pouco com os joelhos completamente submersos e, quando alcançamos novamente a terra, ficamos descalças, sentindo o solo úmido. Aquela mistura de argila e areia era uma massagem em nossos pés cansados. Mais troncos, pedras e cipós pelo caminho. Por pouco a Val quase caiu, nos dando um susto. Depois de meia hora, mais ou menos, começamos a ouvir o som que já nos era familiar. Afastamos as folhas da nossa frente e não acreditamos no que vimos. Era a Gruta da Judéia, a da imagem do folder que ninguém soubera nos informar. Paramos, atônitas, olhando a queda que formava uma poça amarelada, rodeada de areia. Acho que foi uma das cenas mais bonitas que vi na vida.
Novamente ficamos de biquíni. Mergulhávamos e pulávamos dando gargalhadas, nos perguntando se aquilo era um sonho. De repente a Claudia parou e, boiando na água, mirou os meus olhos.
– Isso é que é vida de verdade, não o que a gente vive lá em São Paulo.

– Você tem razão – respondi, pensativa, olhando o céu.

2 comentários:

carina gomes disse...

Amei o blog! Muito bom!
Vc é contadora de histórias? Eu também.
Já estou seguindo.
Bjsss!

Anfremon D'Amazonas disse...

Parabéns pela experiência...sou amazonense e já fui à gruta da judéia umas 4 vezes...

É um passeio bem legal!!
Abraços