terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Vila Matilde mostra seu samba

A Escola Nenê da Vila Matilde é a única da Zona Leste no Grupo Especial*

Michele Prado

Num batuque ritmado, as mãos espalmadas batem uma na outra enquanto cantarola. "Já tocou no chão tem pena / Já tocou no chão tem dó / Já tocou no chão morena...". Aos 83 anos, Alberto Alves da Silva, o Seu Nenê, relembra com exatidão as músicas que cantava no cartório, enquanto aguardava a turma de amigos registrar a escola de samba do bairro. Como só na hora do registro perceberam que não tinha um nome, o escrivão quem deu a idéia: batizar a escola com o apelido do menino que batucava no local. E assim, no dia 02 de janeiro de 1949, surgia o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Nenê de Vila Matilde.
Nascida numa roda de amigos que se reuniam no Largo do Peixe, na Vila Matilde, o samba foi ganhando adeptos até se transferir para o terreno na rua Júlio Rinaldi, na Vila Salete, Penha.
Seu Nenê conta que a escola foi responsável pela visibilidade da região, já que antes dela se instalar ali quase não tinham casas na região. Há mais de 40 anos no bairro, a moradora Maria Citrangulo, 78 anos, lembra o início da construção. "Não tinha nada, era tudo mato, ensaiavam sem cobertura", diz.
Segundo o Presidente da escola, Alberto Alves Filho, mais conhecido como Betinho, a Nenê é uma escola tradicional com o arquétipo de uma zona mais populosa de São Paulo. "O que identifica a gente como suburbano, como pessoal da periferia é a própria história da escola que acaba se confundindo com a história da Zona Leste", afirma.
Com 11 campeonatos no currículo, atualmente a Nenê é a única escola da Zona Leste no Grupo Especial. Além disso, carrega conquistas importantes como a primeira escola com quadra coberta no Brasil e a única de São Paulo a desfilar na Sapucaí, no Rio de Janeiro, ao lado da Beija-Flor e da Mocidade Independente no desfile das campeãs.
Orgulhoso dos feitos, Antônio Vagner Pinto, 56 anos, atualmente responsável pela lanchonete, colabora com a escola há mais de 36 anos. "Não sei se teremos outra oportunidade como essa, mas fomos pioneiros, demos abertura para o samba de São Paulo", relata.
Para Betinho, "a Nenê cresceu e deu visibilidade para uma Vila que hoje pertence ao sub-distrito da Penha e ela cresceu mais que o bairro, então isso mostra o que é a cultura popular, o que é o folclore", diz.

Carnaval 2008

Demonstrando a força das manifestações populares, o samba-enredo de 2008 traz como tema "Um Vôo da Águia Como Nunca Se Viu! Também Somos Folclore do Nosso Brasil - 110 Anos Aprendendo Com Câmara Cascudo". O desfile marcado para o dia 01 de fevereiro, às 4h45 da madrugada, conta com 3,5 mil componentes, 30 alas e 5 carros alegóricos. Para este ano, a Nenê promete surpresas no Anhembi.
"Vamos lutar pelo título, nós estamos no páreo, competindo de igual para igual", afirma Antônio Vagner Pinto.
Na escola, o clima é de excitação. O azul e branco representam as cores do samba da Vila e a alegria toma conta dos passistas que bailam sozinhos na quadra entoando o enredo.
Uns cantam para extravasar, outros para "remexer o esqueleto" e há ainda aqueles que vão em busca de conforto para as doenças do corpo e do espírito. A dona de casa Ivone Iwasaka, 66 anos, desfila na ala das baianas pela primeira vez e conta que precisou ficar doente para ir à escola. "Procurei a escola porque preciso me curar da depressão", diz. Iwasaka mora na rua Júlia Rinaldi há 19 anos, mas só neste participa das atividades da Nenê. "Agora chegou minha vez, eu vim e quero ficar boa", conta. Concordando com a passista, Betinho afirma sambando. "Isso aqui dá injeção de ânimo nas pessoas", diz.
Apesar do tempo reduzido, em comparação com os outros anos, para o preparo das atividades, as expectativas para o desfile são grandes. De acordo com o presidente da entidade, "a qualidade do conteúdo da Nenê é o mais sério, por isso vai ficar na frente", conclui.
Os preparativos dos últimos dias são intensos. Integrantes trabalham incessantemente para finalizar as atividades até o primeiro de fevereiro. "Para mim, a escola é uma das coisas mais importantes. A primeira é a minha família, a segunda é a Nenê", enfatiza Pinto. Uma coisa é certa: se depender do amor de seus integrantes, vitórias é que não vão faltar para a escola.

Samba-enredo

Um Vôo da Águia Como Nunca Se Viu! Também Somos Folclore do Nosso Brasil - 110 Anos Aprendendo Com Câmara Cascudo

Compositores: Nenê, Adriano Bejar e Sulu

PRA ENCANTAR A AVENIDA
A ÁGUIA VEM MISTIFICAR
DE BOCA EM BOCA, PAI PRA FILHO
O MODO DE AGIR, SENTIR E PENSAR (Ô POTIGUAR)
CÂMARA CASCUDO MOSTROU PARA O MUNDO
O FOLCLORE POPULAR
BRASIL DA MISCIGENAÇÃO, NOSSO POVO ESTENDE AS MÃOS
VAMOS MESTIÇAR

COSTUMES DO NORDESTE... ÓXENTE, CABRA DA PESTE
VEM PRO FORRÓ DANÇAR, POEIRA LEVANTAR
MARACATU, FESTA JUNINA
BOI-BUMBÁ NO NORTE, PARINTINS, O PONTO NOBRE
PRO MAU OLHADO TEM REZA FORTE
O PAJÉ PODE SALVAR

FERRADURAS E CARRANCAS... PATUÁS
QUEM FOI QUE DEIXOU O ESPELHO SE QUEBRAR?
NO CENTRO-OESTE NÃO PESQUE SEM ORAÇÃO (PORQUE)
ASSOMBRAÇÃO VAI TE PEGAR

NO SUL BRINQUEI
DE CABRA CEGA E AMARELINHA
E REPAREI NUM LINDO CANTO QUE OUVIA
ATÉ O SACI SE ENCANTOU
NÃO É CHULA, NEM FANDANGO
E PERGUNTOU: - QUE SOM É ESSE?
QUE CADÊNCIA DIFERENTE
PROTEGIDA PELOS DEUSES
ME RESPONDA QUEM VEM LÁ
EU SOU NENÊ! DA CULINÁRIA, BATUCADA E CARNAVAL
NO SUDESTE A FESTA É PRA VALER
FOLCLORE VIVO NESSE AMANHECER

MINHA ESCOLA DE SAMBA É EVOLUÇÃO
BATERIA DE BAMBA, TOCA ATÉ JONGO E BAIÃO
A NOSSA BANDEIRA, MANTO SAGRADO
GUETO AZUL E BRANCO, MITO RESPEITADO

* Publicado na Revista Magazine Leste

3 comentários:

Ricardo Soares disse...

vc mora na vila matilde ? gostei do texto informativo... aprendi...bj

disse...

Eu acho mais legal participar dos ensaios na quadra do que assistir ao desfile no sambódromo. Gostei de seu post.

Há uns três anos não vou a nenhum ensaio, esse ano o carnaval chegou tão cedo que nem me lembrava, mas ao ler o que escreveu, senti saudades.

Ricardo Soares disse...

não só não me importo em ser linkado como também te linkei ... volte sempre...é bom ter alguém de São Miguel no meu blog...bjs