sábado, 8 de março de 2008

Dia das mulheres

Acabei de voltar do salão de cabeleireiro. Não, não foi para comemorar o 8 de março, apenas precisava cortar as pontas ressecadas do cabelo.
Vou ao mesmo salão desde os 15 anos, quando o dono atendia a clientela num cômodo nos fundos da casa dele. Nunca ninguém tinha acertado cortar meu cabelo do jeitinho que eu queria e ele acertou, assim, de primeira. Claro que eu só podia continuar indo lá. Ele acompanhou o início e o término de um namoro que durou quase 3 anos, o fim do ensino médio, os primeiros dias na universidade, viu minhas olheiras no período de TCC, depois a conclusão da graduação, a adaptação no mercado de trabalho e a insegurança na profissão. Eu, por minha vez, vi paulatinamente cada nova tatuagem que ele fazia, as muitas mudanças no visual, a iniciativa em abrir um salão num lugar melhor, o crescimento da clientela, as reformas até ele chegar naquilo que chamamos de "salão de luxo" (ou pelo menos algo assim).
Hoje, quando entrei lá, olhei vislumbrada as muitas mudanças que ocorreram (para melhor). Mas, em contrapartida, me senti um peixinho fora d'água. Ao meu redor cremes enfileirados numa vitrine de vidro, com luzes na parte superior, ao fundo de uma parede lilás em grafiato, aparelhos de última geração, nem sei pra que serviam. Mulheres, várias delas, com uma única preocupação: a beleza. Toalhas no cabelo, misturebas com um cheiro horrível, bob, escova, unhas, tintura, sem falar nos comentários da vida alheia.
Não que eu não goste de me cuidar, pelo contrário. Mas me incomoda essa escravidão às tendências da moda, essa eterna necessidade de ser bela, custe o que custar. Essa semana li no jornal que a nova onda do sexo feminino é cortar o cabelo igualzinho o da Katie Holmes. Nada de pedir corte reto ou desfiado, só chegar no salão e dizer: "Corta igualzinho o daquela mulher do Tom Cruise".
Acredito que as pessoas precisam se cuidar, sim, até para valorizar a auto-estima, afinal, quem nunca se sentiu super poderosa com um corte novo ou uma tintura diferente que atire a primeira pedra! Mas, como disse, o problema é quando determinadas mulheres viram reféns da beleza e fazem disso sua razão de viver. Conheço algumas assim e, acredite, é deprimente. Inteligencia pra quê? O negócio é viver impecável, salto alto e maquiagem forever! Sair de casa sem baton, nem em sonho.
Um dia, tive o desprazer de ouvir alguém dizer: "tem que se arrumar, amiga - elas sempre dão um jeito de acrescentar a palavra AMIGA na frase -, assim as chances de arrumar um cara gato e musculoso, com um carrão e uma baita carteira pra te bancar aumentam. Cara que tem grana gostar de mulher estilo 'paty', é preciso sempre estar impecável". Lembro que a olhei com dó. Ela deveria estar fazendo o mesmo, olhando minha sapatilha, minha calça jeans com a blusinha folgadinha e também tenha se apiedado de mim, por isso resolveu dar os sábios conselhos.
Claro que toda mulher tem uma pontinha de inveja (tá, pra falar a verdade é uma pontona) daqueles mulherões tipo capa de revista, sem nenhum sinal de celulite ou estria. Mas, onde fica o estilo próprio, a vontade de abdicar de saltos porque salto alto incomoda e dá uma baita dor no pé, ou não querer levantar mais cedo da cama para dar tempo de se maquiar?
Pra mim, mulherão mesmo são aquelas que não poupam o peito, não temem a luta de cada dia. Saem cedo pra trabalhar, voltam tarde e ainda dão conta dos afazeres domésticos. Aquelas que se sacrificam pelos filhos, que fazem malabarismo com o orçamento doméstico e temem, mais que tudo, depender financeiramente de um homem. Que são vaidosas na medida certa. Que não fazem do espelho seu fiel conselheiro.
Mulherão mesmo são aquelas que sabem respeitar - muitas vezes inconscientemente - a luta de tantas que no passado, foram queimadas dentro de uma fábrica têxtil porque ousaram exigir seus direitos, ou as que se negaram esperar um bom partido (o tipo com a carteira recheada) que as bancassem, ou ainda aquelas que no dia-a-dia trabalham para mostrar sua competência numa empresa repleta de homens machistas.

3 comentários:

[denise abramo] disse...

isso. exatamente.

essas são mulheres de verdade: as que lutam no dia-a-dia, que tentam sintonizar e estar bem com as pessoas e o mundo, que querem cumprir um papel relevante nele, que querem ser bonitas por dentro e por fora. e principalmente, que querem construir relacionamentos para crescerem como pessoas, para 'ser e tecer' uma felicidade a dois... e não para ser 'bancada'.

parabéns pelo ótimo post e pela sua sinceridade tão bonita e revolucionária!

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disse...

Eu acho triste que em 2008 ainda existam mulheres (a maioria) assim, que colocam a beleza acima de qq outra coisa, como se isso milagrosamente resolvesse os possíveis problemas. Acho que na verdade, a maioria das mulheres, gostam de ser só um pedaçõ de carne. Felizmente estamos fora dessa realidade.

Adorei o texto.

Michele Prado disse...

poxa meninas, obrigada!

e parabéns pelo nosso dia!